SER SANTA versus SER PUTA
A SEPARAÇÃO DO FEMININO
Apesar
de todos os avanços após a revolução sexual da década de 1960 (antes já haviam
movimentos nesse sentido, como a Reforma Sexual iniciada em 1919*), homens e
mulheres chegam na minha clínica ainda com profundas limitações na sua vivência
da sexualidade.
A
liberdade e a permissão social estão longe de significar que as famílias de
fato tenham conseguido educar seus filhos para uma vivência sexual mais livre.
Há que se considerar a influência das religiões e suas proibições, que marcam a
liberdade sexual de uma forma negativa, carregando sua vivência de emoções negativas
como a culpa, a vergonha, e enchendo nossas psiques de mitos.
Dentro
desse imaginário coletivo construído historicamente, o grande fantasma para os
homens é a homossexualidade e para as mulheres é tornarem-se putas. Esse
fantasma feminino (não argumentarei sobre o masculino nesse texto) é decorrente
de uma construção ideológica do Patriarcado e da concepção de propriedade da sociedade
burguesa. Quando surge a ideia de propriedade e de deixá-la para seus
descendentes, também surge a necessidade de uma mulher fiel, que daria a
certeza de que os filhos seriam legítimos. A partir desses interesses, discursos
de gênero foram delimitando o papel de homens e mulheres, e criando proibições
e punições para quem saísse padrão.
Nesse
contexto, identificamos a separação/cisão do feminino. A mulher de valor para
essa sociedade é a santa, fiel,
dedicada à família, subserviente ao desejo do marido, onde a sexualidade tem
fins procriativos e não está ligada ao prazer feminino.
A
outra mulher, a puta, tem permissão
para viver o prazer sexual fora do casamento, e é procurada pelos homens,
inclusive os casados, para viver a sexualidade de forma mais livre. Mas a esta
mulher não é dado o valor familiar. Não é considerada confiável, pois pode
gerar descendentes de outros homens, já que sua sexualidade é livre.
Vários
discursos de saber, médicos, religiosos, políticos e econômicos, foram
reforçando essa cisão feminina ao longo das décadas e séculos. Portanto, ainda hoje
carregamos um peso histórico dos papéis que nos foram delimitados, apesar de
todas as conquistas do Movimento Feminista.
A
mulher cindida pode viver um estado de angústia inespecífico, uma vez que não
tem permissão para expressar-se livremente na vida, tendo que controlar sua
parte rejeitada, com fins de ser aceita socialmente. Como não tem consciência
dessa separação do feminino, pode adoecer gravemente, inclusive deprimindo.
Geralmente,
a parte mais negada pela mulher é a puta, e com ela toda complexidade da
sexualidade e do prazer. Muitas mulheres não são ativas na busca do seu prazer
individual (masturbação) desde jovens, antes mesmo de terem um relacionamento,
e, portanto, quando em parceria, não sabem expressar seu desejo na cama, uma
vez que não conhecem seu próprio corpo.
Quando
a parte negada é a santa, a mulher desenvolve uma dificuldade de vincular de
forma afetiva e amorosa com os parceiros, tendo permissão de viver a
sexualidade livremente somente quando não têm vínculo. É muito comum estas
mulheres “brocharem” quando amam. No filme Ninfomaníaca, de Lars von Trier, com o
único parceiro que a personagem vincula, não consegue sentir prazer
sexual.
Estimada
leitora, qual parte de si mesma você pode estar rejeitando?
Em
busca dessa compreensão, precisamos avaliar, na nossa história familiar, quais
foram os mitos sobre a sexualidade que fomos construindo. Qual conotação a
sexualidade tinha para nossas mães, tias e avós? Quais os ditos populares eram
mencionados e reforçados no dia a dia? Como as mulheres tratavam o próprio
corpo? Como as mulheres viviam as parcerias afetivas? O prazer era permitido ou
rejeitado?
Aprendemos
a ser mulher com nossas mães, tias e avós e é lá que poderemos compreender as
distorções construídas sobre o feminino. Vale muito a pena refazer esse
percurso histórico pessoal.
A
integração do feminino é um processo longo. Venho trabalhando nessa construção
há anos na minha terapia pessoal. Ter consciência do feminino na minha história
de origem facilitou para que eu tivesse mais escolha sobre qual mulher eu quero
ser, e vivesse menos inconscientemente o feminino que era o padrão original.
Integrar
é aceitar, dar direito a existência e amar ambas as partes, a santa e a puta dentro de nós. A terapia
pode ser necessária para ajudar as mulheres nessa busca. Também existem vários
trabalhos de grupo sobre o feminino, que vão ampliar a feminilidade além da
dualidade santa-puta, assim como livros diversos sobre o assunto (conferir a página de indicação de livros do blog).
Queridos
leitores, homens e mulheres, como foi a construção da ideia do feminino nas
suas histórias de origem? Deixe sua experiência registrada no espaço para
comentários abaixo!
* Magnus Hirschfeld,
médico judeu e homossexual, fundou em 1919 em Berlim o Instituto de Ciência Sexual
e organizou o Primeiro Congresso Internacional para a Reforma Sexual. No
segundo congresso, em 1928, em Copenhage, foi eleito presidente honorário da
recém-fundada Liga Mundial para a Reforma Sexual, juntamente com Havelock Ellis.
(FRY, Peter, e MacRAE, Edward. O que é homossexualidade? São Paulo:
Abril Cultural Brasiliense, 1985. Coleção primeiros passos. p. 88)
🙋🏻♀️Eu sou Adriana Freitas
Psicóloga e Terapeuta Sistêmica com mais de 20 anos de experiência, e estou à disposição para te ajudar.
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