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terça-feira, 24 de novembro de 2015

MORAR SOZINHA(O)



MORAR SOZINHA(O)

Lar doce lar, morar sozinho, lista de casamento, competencia, segurança, responsabilidade

Infelizmente nossa cultura ainda é bastante protetora, se é que podemos chamar isso de proteção, atrasando muito a saída dos filhos de casa, com uma maior permissão de saída apenas para estudar ou para casar. Podemos pensar em quantas famílias incentivam seus filhos a saírem para morar sozinhos, e não encontraremos um único exemplo, no melhor das hipóteses alguns poucos.

Quando eu consegui concluir meu planejamento para sair da casa da minha mãe para morar sozinha, escutei frases assim: “você não está dando certo mais com sua mãe?” e “como tem a coragem de abandonar sua mãe?”. Ou seja, a saída de casa de um filho adulto para viver só, tem conotações negativas infundadas, reforçadas pelas famílias e pela sociedade.

Felizmente eu sempre tive um espírito buscador da independência, e desde bem cedo eu queria ter o meu cantinho. Somente há pouco mais de cinco anos, quando eu estava por volta dos 30 anos, foi que tive condições de fazer o meu sonho se tornar realidade, após alguns anos de preparação.

Sim, é necessário se preparar. A não ser que você seja rico ou receba super bem pelo seu trabalho, juntar dinheiro para ter seu espaço demora um bom tempo. São muitos detalhes de cama, mesa, banho, móveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos, além do aluguel ou financiamento.

Diferentemente do casamento, a sociedade não ajuda muito quem vai morar sozinho. Ganhei um fogão da minha tia e minha mãe me emprestou uma mesa e me deu um conjunto de panos de prato, um forro de mesa e alguns cobertores. O restante ficou por minha conta e até hoje ainda preciso fazer melhorias no meu espaço. 

Não ter muita ajuda, por outro lado, foi também uma escolha, pois eu queria comprar as coisas do meu jeito, com a qualidade que eu desejava. Eu queria escolher como minha casa seria. E hoje, por mais incompleta que esteja, minha “casinha” é aconchegante e a minha cara.

Após minha mudança, como eu não saí para estudar e, portanto não fui sustentada pela minha família, o primeiro sentimento que tive, ao constatar que eu estava conseguindo ter a minha vida completamente por minha conta, foi uma grande competência para gerir a própria vida. É imensamente prazeroso ter a certeza de que você consegue cuidar e administrar sua vida completamente. 

Quando as pessoas saem para casar, talvez elas sintam um pouco disso, mas não devem sentir plenamente, pois dividem as contas da casa, desde que seja um casal minimamente saudável. Então, morar sozinha(o) pode ser um importante passo para o crescimento do indivíduo e para sua autoestima.

Ao ver que eu estava conseguindo gerir minha vida de forma independente, meu sentimento de confiança em mim mesma aumentou e consequentemente o sentimento de segurança. Isso refletiu no meu trabalho, que foi também ficando mais seguro e consistente. Assim, também tive um crescimento profissional e financeiro.

Por outro lado, é também muito bom ter seu espaço do seu jeito. Na casa da minha mãe, a casa é do jeito dela e tem a energia dela, e mal mal eu comandava meu próprio quarto. Minha forma de ser é diferente da minha família, então minha “casinha” passou a ter a minha energia a medida que sou eu que a organizo e cuido.

E também, como na minha casa mando eu, entra e sai quem eu quero e desejo, e eu entro e saio no meu tempo, de acordo com minhas necessidades e vontades, sem ter que pedir ou dar satisfações. Sendo assim, tenho mais controle e liberdade. As regras são minhas e eu posso mudá-las sempre que precisar, diferentemente da casa da família de origem, onde as regras são dos donos, e os filhos têm que respeitar, no máximo negociar.

Mas nem tudo são flores. As responsabilidades são muito grandes: contratos, aluguel, financiamento, condomínio, contas diversas, manutenção da casa, datas de vencimento, aborrecimentos de coisas imprevisíveis pra resolver. Tudo nas suas mãos. Se você esquece uma conta, pois as vezes a memória falha, vai pagar juros e multa, não adianta choro nem reclamações.

Mas por que ainda vale a pena? Porque na minha opinião, os ganhos são maiores que as perdas. Responsabilidades fazem parte da vida adulta e precisaremos arcar com elas seja morando só, num casamento ou junto da família. A não ser que você queria ficar criança ou adolescente – síndrome de Peter Pan - para o resto da vida.

O aprendizado também é tão grande quanto as responsabilidades. Este ano, como contei no meu post de aniversário, passei por uma crise financeira muito difícil, mas a partir dela pude aprender a exercitar a paz em momentos de crise. Tive que resolvê-la, encontrando uma saída – empréstimo de dinheiro com minha família – e depois buscar soluções criativas – realização do Workshop da Criança Interna Ferida – para levantar o dinheiro para pagar as dívidas. E tudo isso aumentou minha fé em mim mesma, fé na vida e no mistério divino.

Morar sozinha(o) não tem que ser nem é a única forma de crescimento na vida, mas deveria ser uma possibilidade mais cogitada e incentivada pelas famílias. De toda forma, essa escolha precisa perder suas conotações negativas de abandono familiar e parca solução para relações que não dão certo. É uma forma muito digna de viver que facilita muito o aprendizado e o crescimento pessoal.


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais

Referência da Figura
1 - retirada do google imagens

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

MATANDO O PARCEIRO NOS RELACIONAMENTOS

MATANDO O PARCEIRO NOS RELACIONAMENTOS



Uma das coisas mais difíceis de aprender na vida é lidar com as diferenças humanas. Geralmente aceitamos melhor as pessoas semelhantes e rejeitamos as diferentes. A atração se dá pela semelhança, mesmo quando esta aconteça pelos padrões doentios.
No entanto não quero abordar neste post essas diferenças que impossibilitam uma relação, mas sim aquelas pequenas características da personalidade, as quais geram brigas e picuinhas entre os parceiros, e uma consequente  hostilidade massacrante.
Nossas famílias são nossas maiores escolas no aprendizado de não aceitar as diferenças. É muito comum sermos rejeitados, ameaçados de perder o amor, e até severamente punidos quando somos diferentes, ou quando tomamos caminhos fora do padrão, ou quando agimos contrariamente a expectativa de nossos familiares. Assim, o que aprendemos é que para sermos aceitos precisamos ser iguais, funcionando nos mesmos padrões definidos pela família e pela sociedade como normais.
Sendo educados assim, desde crianças já vamos sendo severos com os coleguinhas diferentes, na adolescência nos agrupamos com as “tribos” de iguais e rejeitamos as outras, e na idade adulta nos relacionamos com parceiros diferentes tentando mudá-los, “matando-os” no sentido metafórico da questão.
Por que utilizo o termo matar? Porque passamos grande parte das relações tentando exterminar as diferenças do parceiro, que o caracterizam como indivíduo. Nos impomos sempre achando que nossos padrões são os melhores e mais corretos, e não temos a flexibilidade necessária para aprender a negociar sem ferir a individualidade do outro.
Sim, o tempo todo ferimos a individualidade dos parceiros. E também somos feridos na nossa.
A situação é agravada quando a pessoa é dependente e entra em relações de dependência, pois não consegue ficar sozinha e por consequência arranja qualquer relacionamento, mesmo aqueles que não são dignos para ela.
Saber ser sozinho e lidar com a própria solidão é fundamental para que possamos escolher um parceiro amoroso que combine com nossos desejos e buscas.
Desde adolescente eu me lembro de ter essa noção de aceitação da diferença em um relacionamento. Eu tinha um amigo de quem eu gostava muito e tivemos um flerte, mas quando ele de fato tentou se aproximar para um relacionamento, eu acabei negando, pois tinham valores religiosos que eu estava começando a mudar, e que eram muito importantes pra ele. Se eu decidisse ficar com ele, eu estaria colocando um entrave nas minhas mudanças ou começaria uma luta para tentar mudá-lo. Na época eu pensei que não era justo com ele entrar numa relação já querendo que ele mudasse. E não era justo comigo também voltar atrás em algo que eu acabara de conquistar.
O problema é que as pessoas, seja por carência, por um baixo nível de consciência ou por problemas de caráter, entram em relações que já sabem de antemão que não são o que desejam, mas com a ilusão de que vão conseguir fazer o outro mudar. Isso não vai acontecer. O outro só muda se ele quiser muito. Mudanças requerem muito esforço, mais fácil é ficar na zona de conforto dos nossos aprendizados originais.
Precisamos escolher relações que estejam baseadas em valores semelhantes aos nossos, onde haja afinidades em alguns aspectos, com pessoas que consigamos aceitar as qualidades e defeitos. Tolerar apenas, é insuficiente, precisamos aceitar. E isto não significa que tenhamos que permitir ser agredidos e mal tratados, mas exige que saibamos lidar com as diferenças sem fazer delas uma ameaça ou um campo de batalhas.

Especialmente, precisamos aprender a negociar com nossos parceiros o que desejamos, o que não desejamos, o que aceitamos, o que não aceitamos, fazendo isso de forma amorosa, sem matar a individualidade do outro.
E se a pessoa é muito diferente de nós, se nossos valores e crenças são contraditórios e não toleramos vários aspectos do outro, o melhor caminho é sair pela porta onde entramos, a “arte de saber se retirar”. Há relacionamentos que simplesmente não são possíveis, ou não valem a pena.
Pense nisso leitor e deixe seus comentários no espaço abaixo!


 Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte

Referência da Figura
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segunda-feira, 25 de maio de 2015

1+1 = 1+1 - A CONTROVERSA INDIVIDUALIDADE NOS RELACIONAMENTOS

1+1 = 1+1

A CONTROVERSA INDIVIDUALIDADE NOS RELACIONAMENTOS

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Frequentemente na prática clínica com casais, procuro trabalhar a importância de se criar um espaço para cada parceiro ter seu momento de indivíduo sozinho.

Essa ideia na nossa cultura social e religiosa é muito controversa, pois em geral, os casais fazem muito esforço para serem um só. Já dizia o discurso religioso do casamento que dois viram um, “um só corpo e uma só carne”.

Recentemente, lendo o livro “Uma nova visão do amor” do Flávio Gikovate, clareou pra mim mais um pouco dessa dificuldade de se viver a individualidade dentro de um relacionamento. Ele argumenta que as nossas relações amorosas, são o reflexo da nossa busca pela fusão perfeita da simbiose mãe-filho no útero e nos primeiros momentos fora dele, no aconchego materno. É como se, além de não elaborarmos a perda dessa separação com a mãe, criássemos nosso conceito de amor baseado nessa fusão, e tentássemos alcançá-la novamente, projetando essa busca na vida a dois.

E se o amor é entendido como fusão, esperamos que nossos parceiros correspondam essa expectativa, também se fusionando a nós, o que compromete a vivência da individualidade e da liberdade, pois o que não é fusão será entendido como desamor.

Assim, buscamos relações onde 1+1=1. O problema dessa busca é que, apesar dela parecer ser possível no momento da paixão, ela não se sustenta por si só. Cada pessoa tem diversas funções na vida e não consegue estar 100% disponível para o parceiro o tempo todo. As falhas na simbiose perfeita aparecerão naturalmente quando alguém não puder corresponder alguma das expectativas do outro.

Gikovate também aponta que somos inteiros que se sentem metade. Esse sentimento de ser metade não é passível de ser preenchido pelo externo, exatamente porque o outro é falho. Somente cada indivíduo é capaz de buscar preencher o próprio vazio interno, na medida em que se responsabiliza por descobrir suas necessidades físicas, emocionais, intelectuais e espirituais, e quando passa a cuidar delas de forma atenciosa, amorosa e constante.

E apenas quando cada indivíduo consegue se sentir mais inteiro é que as relações podem se transformar em 1+1 = 1+1, modelo que considero mais saudável, havendo espaço para o indivíduo e para o casal.

Numa relação de dois inteiros, existem menos expectativas de suprimento fusional dos vazios emocionais. E por outro lado, existe mais disponibilidade de doação de um amor maduro para o outro.

Nesses casos, a individualidade não se torna uma ameaça para o outro, pois existe uma segurança interna de que cada um cuida de si, e o cuidado do outro vem como um acréscimo sadio e prazeroso. Não há uma dependência do cuidado do outro e se ele for embora haverá muita tristeza, mas não haverá esfacelamento do eu, desde que não haja mais fusão.

Ao contrário do que pensam os inseguros, a vivência da individualidade enriquece os relacionamentos, pois quando o outro pode ir “para o mundo” e viver novas experiências, ao voltar para o nosso lado ele traz toda riqueza que experimentou.

Lembrei-me do livrinho do Rubem Alves, “A menina e o pássaro encantado”. Quando a menina deixava seu pássaro livre para viajar o mundo, ele voltava com as penas multicores e lhe contava milhares de histórias fantásticas. Quando ela prendeu seu pássaro na gaiola, movida por sentimentos de ciúmes, insegurança e medo do abandono, ele foi ficando com cores escuras e sem vida.

Falando em sentimentos, Zuenir Ventura em seu livro “Inveja - Mal Secreto”, define o ciúme como sendo um desejo de exclusividade do objeto amado, um não desejo de dividi-lo com ninguém. É um sentimento que combina com meninas inseguras, com gaiolas e inviabiliza ainda mais a individualidade.

A não permissão para a vivência da individualidade nos relacionamentos reflete padrões infantilizados de vínculos com parceiros imaturos, inseguros e com um conceito de amor baseado na fusão.

A individualidade só deixará de ser uma ameaça na medida em que tivermos uma autoestima fortalecida, um amor próprio bem constituído e a liberdade de amar sem ser correspondido.

Você já evoluiu até este ponto, leitor? Ou ainda está buscando um amor de fusão? Deixe seu comentário no espaço abaixo!

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte

Referência da Figura

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