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sábado, 2 de agosto de 2014

A RAIVA NOS RELACIONAMENTOS - HOSTILIDADE CONJUGAL

A RAIVA NOS RELACIONAMENTOS

HOSTILIDADE CONJUGAL

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Ontem dei uma aula sobre Hostilidade Conjugal, para um grupo de colegas onde faço supervisão. O texto deste post é um resumo dessa aula.
Nossos relacionamentos nos despertam múltiplos sentimentos e emoções, bons e ruins, saudáveis e doentios. Por isso, uma diversidade de conflitos surgirá ao longo das relações, podendo gerar crescimentos, negociações ou destruições da autoestima dos indivíduos e de seus vínculos.
A dificuldade de lidar com os sentimentos no geral e mais especificamente com os sentimentos hostis faz com que levantemos a muralha de nossas defesas e bloqueemos os canais de comunicação. No entanto, os pensamentos e sentimentos encontrarão outras formas de expressão, que podem ser muito disfuncionais e até destrutivas para os indivíduos e as relações.
Não fomos ensinados a comunicar nossos sentimentos de forma assertiva. Como a raiva é conotada negativamente em nossa cultura e em nossas famílias, fica mais comprometida a sua expressão consciente. Dessa forma, processos de negação poderão muitas vezes camuflá-la atrás de outros sentimentos ou transformá-la em outros comportamentos.
A raiva encontrará outras formas de expressão implícitas e indiretas como o distanciamento, a indiferença, o boicote aos interesses individuais, a vitimização, até mesmo a autopunição e autodestruição.
O casamento se torna insatisfatório e hostil porque é baseado em projeções. Projetamos nos parceiros os desejos insatisfeitos das nossas primeiras relações de amor, ou seja, esperamos que as relações de casal venham suprir nossas carências mais básicas, aquele amor completo que nossos pais não puderam nos oferecer por causa de suas limitações humanas.
E assim, quando o casamento adquire uma função de salva-dor, já está fadado ao fracasso, pois está obrigado a resolver as carências, faltas e vazios infantis. Como nenhum parceiro consegue o tempo todo salvar a dor do outro, o casamento fica frustrante pois deixou de cumprir sua obrigação, e essa frustração é o propulsor da raiva.
Somos narcisistas. Só enxergamos a nós mesmos na relação. Não entramos nas relações pelo outro, mas sim pelo que o outro pode nos oferecer. O narcisismo designa o estado em que a libido é dirigida ao próprio ego, um amor excessivo a si mesmo. Em consequência disso, os três desejos secretos do amor têm a ver com: 1) a busca de fusão com o parceiro por causa do medo da solidão; 2) o desejo de aprovação do outro e de sua confirmação constante; 3) o desejo de estímulo que irá preencher o vazio das primeiras relações.

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Então, esses desejos envolvem uma preocupação básica consigo mesmo e com as próprias satisfações, sendo nutridos pela necessidade de receber em vez de dar amor. Nenhum tem alguma coisa a ver com dar amor para a outra pessoa. Só damos com a intenção de receber.
É triste nos deparar com nosso próprio egoísmo.
A vulnerabilidade narcisística está na essência de todos ou da maioria dos conflitos conjugais e o grau de vulnerabilidade de cada parceiro é muito semelhante, ainda que as manifestações superficiais possam ser incrivelmente diferentes.
E o problema se agrava pois além de esperar que o outro supra nossas necessidades e carências infantis, temos uma regra infeliz no contrato inconsciente do casamento que fala o seguinte:
“Eu tentarei ser algumas das coisas mais importantes que você quer de mim, ainda que algumas delas sejam impossíveis, contraditórias e loucas, desde que você seja para mim algumas das coisas impossíveis, contraditórias e loucas que eu quero que você seja. Não precisamos contar um ao outro o que essas coisas são, mas ficaremos zangados, aborrecidos ou deprimidos se não formos fiéis a isso” Pincus e Dare (conferir referência completa).
Ou seja, o contrato inconsciente reforça uma dificuldade comunicacional dos relacionamentos pois o outro tem que adivinhar o que eu desejo e preciso e se não o fizer isso será considerado desamor. Uma comunicação ruim aumenta significativamente a raiva e a hostilidade conjugal. As brigas ficam destrutivas e não chegam a lugar nenhum.
Os casais precisam aprender a utilizar sua energia agressiva para resolverem as suas frustrações relacionais e não para destruir o outro. E também para melhorarem sua comunicação e sua autoestima.
Numa comunicação construtiva há uma expressão clara de um problema particular, cada oponente escuta atentamente o outro, estabelece seu próprio posicionamento nitidamente, descobre o posicionamento do outro e desenvolve trocas de negociação. Há um movimento real em direção da resolução da dificuldade, o entendimento acentuado do outro e um compromisso negociado mutuamente.
No filme “Separados pelo Casamento” o casal entra numa comunicação completamente inadequada, num jogo sem fim, até que chegam a um “cessar fogo”, onde comunicam o que realmente precisava ser comunicado, mas infelizmente tarde demais, num momento em que a relação já havia sido destruída. Vejam a cena:



Além de buscarem a melhoria da comunicação, os parceiros também precisam aprender a cuidar de suas próprias carências e necessidades para não ficar esperando que o parceiro o faça. A responsabilização de cada indivíduo consigo mesmo é fundamental para a saúde das relações. Reconhecer e confirmar a si mesmos assim como buscar realizar seus desejos e projetos individuais, são questões importantes que favorecem a diminuição de expectativas nas relações conjugais e por consequência diminuem também a hostilidade conjugal.

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Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

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Referências das Figuras
 http://minhavidaperfeita.com.br/terapia-de-casal-voce-tem-palavra/

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sexta-feira, 2 de maio de 2014

BRIGAS DE CASAL - DISPUTA DE PODER EM CASAIS SIMÉTRICOS

BRIGAS DE CASAL
DISPUTA DE PODER EM CASAIS SIMÉTRICOS

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Na família tradicional não encontramos muito o padrão de disputa de poder nos casais, uma vez que os papéis de gênero são bem delimitados e a hierarquia familiar é claramente definida com o homem no topo e a mulher logo abaixo, tendo poder apenas no cuidado familiar e doméstico. Essa dinâmica tradicional pode ser definida como complementar (que abordarei no post seguinte).
Foi após o movimento feminista, quando as mulheres galgaram uma nova posição na sociedade e na família, que houve uma transformação na hierarquia familiar colocando o casal em uma localização hierárquica mais igualitária, simétrica. Dessa forma, as brigas por disputa de poder passaram a ser mais comuns nas relações amorosas da contemporaneidade.
Simetria (iguais, em uma mesma posição) e complementaridade (diferentes, em posições distintas) são padrões de comunicação das relações, que de acordo com Watzlawick (e col.) não são necessariamente bons ou ruins, normais ou anormais. Pelo contrário, uma dinâmica funcional nas relações deve alternar entre ambos padrões, de acordo com o contexto vivido. A tendência ao funcionamento em um polo só é que pode se transformar em graves patologias da comunicação: a escalação simétrica e a complementaridade rígida.
A competitividade é uma característica acentuada em relacionamentos simétricos. Os parceiros podem competir por coisas importantes ou por qualquer bobagem, mas a meta é sempre ter razão, um estar certo e o outro errado. Ganhar significa muito para esses indivíduos e eles tentarão ao máximo utilizar de todos recursos verbais e não verbais que possuem, podendo ser injustos, utilizando das fraquezas do outro, que conhecem muito bem, como armas da disputa.
Na escalação simétrica, doença deste tipo de comunicação, ambos competidores utilizam de ataques como defesas, entrando muitas vezes em jogos sujos de desqualificação do outro para se sentirem maiores. Nesses jogos sem fim vale tudo, recursos psicológicos, físicos (não abordarei aqui as complexas questões da violência doméstica e de gênero), reais e imaginários, podendo chegar a destruição de um ou ambos. Um exemplo que ajuda a visualizar esse padrão é o filme “Guerra dos Roses”, que após uma primeira fase complementar do casamento, os cônjuges entram numa escalada simétrica até a destruição da relação, da casa e de si mesmos.

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Imagem de uma das cenas do filme Guerra dos Roses
 Casais simétricos são geralmente muito raivosos e esta raiva pode ser a atualização de sentimentos inconscientes do passado, causados por questões de suas histórias de origem. Por exemplo, uma mulher que teve uma mãe muito submissa pode ter muita raiva dela e ter feito um pacto consigo mesma de nunca ficar igual a mãe, levando isso para o relacionamento em forma de jamais se submeter. Ela reagirá a qualquer sinal do que pareça submissão, levantando suas próprias defesas atacantes, disposta para a disputa de poder. Outro exemplo, um homem que teve um pai muito autoritário, pode fazer um pacto consigo mesmo de nunca mais deixar ninguém controlá-lo ou “aumentar a voz” para ele. Na relação entre iguais, ele reagirá emocionalmente ao menor indício do que pareça controle, agigantando suas próprias defesas também atacantes.
Dessa forma, por trás das homéricas brigas de casal, encontra-se a importante psicodinâmica individual de uma autoestima ferida ou diminuída, construída numa família de origem que não conseguiu suprir as necessidades infantis dos filhos. Como consequência, os parceiros projetam na relação amorosa, grandes expectativas de sarar ou pelo menos ocultar as feridas infantis. E quando há a frustração dessas expectativas, surge uma hostilidade diante do aparecimento dessas feridas, refletindo o próprio vazio emocional e a raiva dos pais que não pode ser admitida tampouco vivida. Assim o parceiro se torna o bode expiatório de todo mal resolvido original, pois ele não consegue suprir as necessidades infantis do companheiro “adulto”.
Outra possibilidade são os casais repetirem a dinâmica competitiva dos pais, ou como indivíduos ou como casal. Os modelos parentais são muito importantes como referências para os casais em formação. Se um dos parceiros viveu num ambiente onde as brigas e a competição eram comuns e normais entre pais ou pais e filhos, terá uma forte tendência a repetir esses padrões em suas relações de parceria.
Portanto, a disputa de poder dos casais deve ser avaliada a luz do passado e do presente, da família e da cultura.
Na busca de saída para a doença da simetria, além de fazerem o esforço de compreenderem essa origem da disputa de poder, os casais precisam ainda redefinir o conceito que têm de ganhar e perder. Na maioria das vezes o conceito de ganhar tem a ver com “ter razão”, ter a própria visão como sendo a mais válida, anulando a visão do outro. Em termos de subjetividade todas as visões são válidas pois cada pessoa terá sua própria versão do problema em questão, o que não significa que seja a verdade absoluta. O que o parceiro sente e pensa é completamente particular dele, e precisa ser considerado. Colocar-se no lugar do outro, enxergar seu sentimento e subjetividade e desistir da necessidade de ter razão, saindo da disputa ao invés de continuar nela pode ser “ganhar”, em termos de melhoria para si mesmo e para o relacionamento. Por isso a necessidade de reconceitualização.
A grande luta dos indivíduos que têm relações simétricas é pela busca de autoafirmação, numa reação emocional a criança interna ferida, mas infelizmente ainda num padrão que precisa da referência e massacre do outro. No fundo são pessoas inseguras que não aceitam a diferença do parceiro, e tentam matá-la grande parte do tempo, para que ele seja o que desejam.
Numa relação simétrica saudável há brigas construtivas, onde cada um escuta atentamente o ponto de vista do outro, não havendo necessidade de mudar a opinião do outro para valer sua própria. Os parceiros compreendem que podem ter pensamentos divergentes e ainda sim manterem a coerência da relação. Têm posições iguais na tomada de decisões do casal e da família, podendo cada um apresentar sua visão e ambos se esforçam para chegar a um acordo do que é melhor para o momento. Dividem as tarefas familiares e domésticas de acordo com suas próprias habilidades, sem sobrecarregar nenhuma das partes.
Segundo Scarf, uma boa briga termina com o entendimento acentuado da dificuldade do relacionamento e dos indivíduos, um compromisso negociado (não imposto) mutuamente onde ambos se comprometem com sua construção e manutenção, e um movimento real em direção da resolução da dificuldade, com responsabilização e companheirismo das duas partes.
Enfim, os parceiros conseguem se aceitar e validar mutuamente como são, tendo respeito um pelo outro em suas semelhanças e diferenças.
relacionamentos, brigas de casal, disputa de poder, relações simétricas, competição

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

Figuras
1 – http://casamento.culturamix.com/curiosidades/as-brigas-constantes-de-um-casal-fazem-bem-para-eles


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