Você já parou pra pensar o quanto está disposto a investir num relacionamento?
Geralmente entramos numa relação amorosa com a fantasia de que tudo vai fluir magicamente e dar certo espontaneamente sem que façamos nenhum reforço.
Infelizmente não funciona assim. Relacionar dá trabalho! É preciso ter disposição, paciência, persistência e perseverança.
A paixão é um momento quase perfeito. Tudo funciona bem. Eu dou o melhor de mim e o outro dá o melhor de si. Passada a paixão vem a realidade e nossos defeitos aparecem assim como nossas carências ocultas. Enxergar a realidade nem sempre é facil. A pessoa da paixão e a pessoa real parecem ser completamente diferentes e opostas.
Esse é o momento que os casais mais se separam. Não toleram a frustração, ficam com raiva, se sentem traídos e não sabem lidar com as diferenças. Perdem a chance de evoluir juntos.
Muitas vezes entram no módulo bélico de se relacionar, disputam poder, culpam e tentam mudar o outro a qualquer custo, chegando até a tentar matar o outro, real ou simbolicamente. Isso não é amor, está longe de ser... Já dizia o coach relacional Arly Cravo que "quando o poder entra pela porta, o amor sai pela janela" (ou algo do tipo rsrs)
O namoro é o grande aprendizado de Modular a Alma um do outro, com amor e afeto. A arte de negociar é muito importante nesse período para que as necessidades de ambos sejam nutridas.
Uma boa dose de individuação ajuda cada parceiro a saber cuidar de si para não projetar velhas carências na relação. Eu cuido de mim, você cuida de si e nós cuidamos um do outro e da relação.
Precisamos estar adultos e não mais crianças carentes. Precisamos dar amor maduro e não só esperar sermos amados de forma infantil.
Se você deseja uma relação amorosa digna, uma verdadeira parceria que valha a pena, procure alguém realmente disposto, a crescer e evoluir com você!
Por que nossa sociedade se organizou
de forma a ter uma mudança ritualística de um ano para o outro?
Exatamente porque somos seres
indisciplinados, irresponsáveis e incoerentes com nossas vidas e relações.
Prometemos sempre uma lista de
coisas para o ano inteiro e cumprimos apenas alguns itens, isso quando
cumprimos. Ou criamos metas inalcançáveis a médio e curto prazo e acabamos por
desistir no meio do caminho.
A mudança ritualística de fim de ano nos faz relembrar nossos desejos
e objetivos de vida e isso é muito importante. Apesar da mudança ser uma ilusão, quando
levamos a sério a redefinição de objetivos e fazemos votos de renovação conosco
mesmos, uma pequena chama de responsabilidade se acende dentro de nós. Mas esse
fogo pode ser mantido aceso ou pode ser apagado, dependendo se assumimos essa
responsabilidade ou não.
A maioria de nós aprendeu a esperar
que o outro fosse o responsável pela
nossa felicidade. Ficamos crianças esperando ser cuidados até hoje. Esse é um dos motivos pelo qual não assumimos a total responsabilidade por nossas vidas.
Assumir a total responsabilidade é
fundamental para que nossas metas estabelecidas sejam construídas durante o
ano.
Mesmo quando estamos nessa busca, uma dificuldade que encontramos é nossa ansiedade e imediatismo.
Queremos realizar nossos desejos, mas novamente como crianças, queremos que
tudo se realize magicamente. Não sabemos esperar e tampouco curtir o processo
de construção que envolve a busca de concretização das nossas metas.
Acredite! A ansiedade não vai acelerar
o processo, só faz a gente sofrer enquanto não alcançamos o resultado.
Portanto, se você é uma dessas pessoas, busque uma ajuda terapêutica.
Psicoterapia, Homeopatia e Acupuntura e práticas alternativas como a espiritualidade,
meditação e yoga ajudam muito em casos onde a ansiedade não é patológica
demais. Se for este o caso, é necessária a ajuda de um Psiquiatra.
Além de aprender a lidar com nossa
ansiedade, precisamos também construir uma organização disciplinada para nossas
rotinas. Uso aqui o conceito de disciplina das artes marciais* que engloba
quatro importantes palavras: respeito, compromisso, abdicação e esforço.
É muito importante ter Respeito as regras estabelecidas na
organização estipulada. Já ter Compromisso consigo próprio implica
cumprir adequadamente as etapas necessárias para um bom funcionamento da rotina.
Abdicação significa abrir mão, perder algo em troca de um ganho maior. Também é necessário muito Esforço, fazer força para
que o objetivo dê certo, enfrentar os imprevistos e sentimentos negativos como
a preguiça, contrapondo-os em prol do bem maior. Os quatro itens são interligados e
interdependentes.
Não acredito que essa organização
tenha que ser rígida, mas ela precisa ser firme
e flexível ao mesmo tempo. Precisamos cumprir nossa rotina a maior parte do
tempo, para que possamos conseguir realizar todas nossas responsabilidades e consequentemente atender nossas necessidades materiais, emocionais, intelectuais e relacionais.
Outro aspecto importante para que
cheguemos a ser responsáveis conosco mesmos é o cuidar das nossas carências. Na maioria das vezes não
somos disciplinados porque estamos buscando tamponar nossas
carências, utilizando de atividades compulsivas ou dependentes do outro. Mas o
que não enxergamos é que essa busca alimenta o ciclo vicioso dos nossos buracos
emocionais, uma vez que não é buscar o cuidado no outro que vai nos alimentar e
sim buscar aprender cuidar de nós mesmos.
Assim, meu desejo é que em 2015,
possamos aprender cada vez mais, a ser responsáveis com a nossa existência!
Imagem de uma das cenas do filme "A História de Nós Dois"
Não irei falar hoje de casamentos conjugais, mas sim do
importante vínculo familiar original de nossas vidas que, se não resolvido,
impede uma união saudável entre parceiros.
É na família
que vivemos nossos primeiros vínculos de
amor com as figuras parentais ou seus representativos. Há amores saudáveis
e doentios, sendo estes últimos os que mais aprisionam os indivíduos em
casamentos emocionais com a família de origem.
Destaco aqui dois afetos
doentios aprisionantes: 1) superproteção dependente e 2) falta de
afeto.
No primeiro, os
pais parecem cuidadosos até excessivos, mas no fundo são dependentes do carinho
e atenção dos filhos, demandando-os excessivamente ou deixando os filhos
culpados quando eles se afastam para realização de cuidados com a própria vida.
Estes tipos de pais são os mais difíceis de questionar, uma vez que parecem que
amam muito seus filhos, mas infelizmente eles são pessoas presas nas próprias
carências e exigindo amor dos filhos. Dessa forma, a culpa do abandono,
consciente ou inconsciente, é o sentimento que predomina para efetuar o
aprisionamento.
No segundo afeto
doentio, é a falta de amor e o desejo de conquistá-lo que irão aprisionar os indivíduos.
Pais distantes e também abusivos (todos os tipos de violência) não conseguirão
suprir as necessidades de amor dos filhos e os deixarão carentes e até mesmo traumatizados. Estes filhos
reagem na busca de perfeição para não contrariarem ou para serem vistos, na negação
do afeto através de uma falsa não necessidade e de uma não entrega para o outro, ou na reprodução da violência que
sofreram, perpetuando assim o distanciamento do outro e sua fome de amor.
Pais saudáveis deixam seus filhos livres para ir e voltar. Pais doentes não
liberam seus filhos para viver a própria vida tampouco para casarem. Filhos doentes ficam presos na não liberação dos pais. Assim, o casamento de filhos doentes até acontece em termos de rituais,
mas não acontece em termos emocionais, uma vez que os indivíduos estão casados
com a família de origem, seja na culpa, no falso afeto, na rejeição, no rompimento ou na busca de amor.
A imagem no início se refere a uma das cenas do
filme “A História de Nós Dois”, dirigido por Rob Reiner e estrelado por
Michelle Pfeiffer e Bruce Willis. Nela temos uma representação caricatural de
como os pais “habitam” a cama dos cônjuges. No filme o casal está vivendo uma
crise conjugal e trás a tona todos os padrões familiares repetitivos que estão
afetando e prejudicando a relação, mostrando como cada um deles está casado com
a família de origem.
Como este casamento familiar se dá na realidade do dia a dia? Há aqueles
casos explícitos onde o filho vai todos os dias na casa dos pais, almoça
junto, liga todos os dias, ou resolve todos os problemas da família de origem,
no entanto, deixa muito a desejar na própria casa. Costumam dizer "lá em
casa" se referindo a casa dos pais. Há também os casos mais implícitos
onde os indivíduos repetem os mesmos papéis que exerciam nas famílias, ou as
mesmas dinâmicas de relacionamentos dos pais e dos familiares. Ou também
repetem as mesmas reações emocionais que vivenciavam com a família.
Para se casar
emocionalmente com o cônjuge é necessário primeiro se separar da família
de origem. Uma tarefa bastante difícil, pois requer assumir uma série de
responsabilidades na transformação para o ser adulto:
odesidealizar os pais, enxergando-os como
humanos e falhos
oaceitar os pais reais que temos,
mesmo não concordando com eles, sem querer transformá-los nos nossos desejos
oabrir mão ou transformar os papéis que ocupávamos e exercíamos na família de origem
onão transferir para o parceiro a busca de amor que foi falha nos pais
oassumir todas as responsabilidades pelas
próprias necessidades, sejam elas físicas, emocionais, intelectuais e espirituais
oenfim, tornar-se pai e mãe de si
mesmos.
Os indivíduos vivem essa dinâmica de casamento emocional com a família de origem de forma
inconsciente e no casamento com o cônjuge não existe uma pessoa mais madura do que a outra. Ninguém
casa com alguém por acaso. Escolhemos parceiros semelhantes, com o mesmo nível
de separação emocional, ainda que na superficialidade
pareça o oposto.
Para a maioria dos casais que chegam ao meu consultório
buscando terapia de casal, eu costumo deixar a pergunta: vocês realmente querem casar
e pagar o preço da separação emocional familiar? Quando há o desejo, o
terapeuta pode contribuir, mas se não há, nosso trabalho fica limitado.
E você leitor, já realizou essa separação
emocional da sua família de origem? Deixe no espaço para comentários abaixo
suas impressões e sentimentos sobre o texto.
Essa semana, estando meio sem inspiração para escrever, me
vi sentindo preguiça de trabalhar no
post semanal do blog. Comecei então a refletir sobre como isso também acontece
com frequência nos relacionamentos, quando ficamos com preguiça de enfrentar, dialogar,
negociar e resolver diversas questões com nossos parceiros.
A preguiça é definida
como pouca disposição ou aversão ao trabalho seja ele qual for. Ela se apresenta
na morosidade em cumprir alguma atividade física ou mental. Assim, o preguiçoso
evita situações nas quais precise fazer algum esforço.
Na vida e nas relações amorosas, o enfrentamento do outro e das dificuldades humanas, requer um
investimento de energia que muitas vezes nos é bastante incômodo e desgastante. Não enfrentar é uma saída
de maior economia energética momentânea, característica central da
preguiça. No entanto, o conteúdo não enfrentado aparecerá novamente em outro
momento, tornando inevitável que o indivíduo se posicione ativamente. No pior
dos casos de evitação crônica, onde há a permanência num relacionamento falido,
poderão surgir sintomas nos parceiros ou nas gerações seguintes, mortes
(inclusive a morte em vida), brigas crônicas, anestesias com drogas lícitas e
ilícitas, etc.
A preguiça pode ser uma defesa ou uma reação contrária ao
enfrentamento de algo incômodo para nós. Juntamente com ela, vem a procrastinação. O problema é que adiar
o enfrentamento de uma dificuldade pessoal ou relacional não a eliminará de nossas
vidas e pior, pode aumentá-la consideravelmente. E se estávamos tentando
economizar a energia através da evitação, a força terá que ser ainda maior para
lidar com o problema posteriormente ampliado e “inflamado”. Dessa forma, precisamos avaliar quais conteúdos
relacionais nos provocam preguiça para compreendermos quais dificuldades
importantes internas precisam ser trabalhadas. Avaliando minha procrastinação
para escrever este post, consigo enxergar algumas questões e sentimentos escondidos por detrás, pontos nodais a serem considerados:
1. Falta de organização: sou responsável
por todos os aspectos administrativos pessoais e profissionais da minha vida.
Quando não me organizo de forma a encaixar todas as minhas atividades na
agenda, tudo se acumula e passo a me sentir em débito comigo mesma. Com tanta
coisa para fazer e "pouco tempo", e falta de inspiração diante
de uma tarefa mais difícil ou mais trabalhosa, podemos nos perder na preguiça.
Tendemos a fazer o que é mais fácil primeiro adiando o mais complicado.
Conversar sobre problemáticas relacionais está neste último grupo e tendemos a adiá-la. Precisamos
então organizar nossas vidas de forma a colocar o diálogo, por mais complexo que
seja, como uma prioridade da relação, incluído dentro a nossa agenda.
2. Confusão Mental: quando eu não sabia
o que escrever apesar das múltiplas ideias ainda existentes, entrei num
processo de confusão e talvez letargia mental, os quais comecei a evitar
fugindo da tarefa. Precisei “conversar” com minha preguiça para compreendê-la e
sair dela. Quando estamos confusos sobre nossos sentimentos ou ações nos
relacionamentos, tendemos a evitar o confronto com os parceiros pelo fato de
não sabermos qual posicionamento tomar. Algum tempo é realmente necessário para
clareamos nossa compreensão, e para assumirmos a postura que precisamos. Mas
sem fuga, pois esta só nos leva pra mais longe de nós mesmos e do parceiro.
3. Anestesiando emoções: quando fiquei
paralisada diante das minhas muitas atividades e da dificuldade de dedicar a
escrita, minha ansiedade aumentou e em seguida a preguiça ficou maior
anestesiando tudo. A preguiça, assim como as compulsões no geral, também tem o “poder” de anestesiar as emoções
advindas dos conflitos relacionais. Enfrentar e elaborar sentimentos difíceis é
uma tarefa muitas vezes árdua. Demanda coragem e disposição. Anestesiar é como procrastinar, adia mas não elimina o problema. 4. Enfrentamento das dificuldades e dificuldade com enfrentamentos: precisei admitir que estava com dificuldades em relação a escrever esta semana para então buscar compreender o que estava acontecendo e transformar isso num texto. Quando conseguimos admitir nossas dificuldades, já caminhamos o primeiro passo. Nos relacionamentos tendemos a negar nossas dificuldades em função do nosso medo do enfrentamento, mas por trás desse sentimento tem o maior medo que é da perda do amor do parceiro. Precisamos compreender que o não enfrentamento se transforma numa sujeira varrida para debaixo do tapete e que é com o enfrentamento que a intimidade cresce, quando conseguimos desenvolver uma conversa honesta sobre nossos sentimentos mais profundos.
O oposto da preguiça seria o resgate da disposição para o trabalho. Resolver problemas e
dificuldades relacionais dá trabalho mesmo! Infelizmente temos uma crença
infantil de que os relacionamentos têm que dar certo por si só, sem fazermos
nenhum esforço. Por isso ficamos tão preguiçosos diante das problemáticas
amorosas. Precisamos construir uma nova crença sobre os relacionamentos, que
inclua o enfrentamento de si mesmo e do outro como parte de uma postura adulta,
reflexiva e ativa.
Compartilhe conosco seus pensamentos, opiniões e questões sobre este post e sobre o tema no espaço para os comentários abaixo!
Quem nunca sentiu uma profunda dor pela perda de uma paixão
ou um amor?
Certamente em algum momento você já teve alguém por quem
cultivou um forte sentimento, e a perda desse relacionamento te deixou
arrasado. Especialmente quando é esse alguém quem decide ir embora das nossas
vidas nos deixando com nosso sentimento ainda grande demais. Ou quando
decidimos deixar um relacionamento por não aceitarmos suas condições mesmo
quando ainda gostamos do parceiro. Ou perdemos o amado para a morte, no auge do
nosso amor. Ou perdemos o amado para sua própria mãe/família que não quer deixá-lo
crescer, e nem ele faz o esforço!
Qualquer que seja a forma da perda, podemos viver a dor e
superá-la ou podemos entrar num processo de sofrimento sem fim, ficando presos
em um luto patológico. Para todo luto e necessário um período razoável de tempo
para sua elaboração e também para a recuperação emocional do indivíduo. Eu
mesma já gastei nove meses, num chororô danado, para me recuperar de um
namoro do qual sai apaixonada, por não aceitar certas condições doentes que começaram
a se estabelecer desde o início.
O que mais me impressiona é como as pessoas não respeitam
seus processos de vivência do luto, buscando uma série de anestesias - remédios,
álcool, drogas, comida, trabalho - ou caindo imediatamente em novos
relacionamentos, propensas a repetir os mesmos erros não elaborados do
relacionamento anterior.
Culturalmente vivemos numa época onde a indústria farmacêutica
vende a fantasia de que sentimentos são doenças e devem ser medicalizados.
Tristeza e mágoa viraram depressão, raiva se transformou em bipolaridade ou
histeria, medo em pânico e assim vai uma lista enorme. Fugimos igual "o diabo
foge da cruz", de vivermos nossas tristezas, mágoas, raivas e
ressentimentos, sendo os primeiros a buscar alguma forma de anestesia. Queremos
solução imediata, servindo qualquer coisa pra aplacar ou desviar a atenção da
nossa dor.
Entretanto, precisamos passar pelo processo de luto para
nos recuperarmos, curarmos nossas feridas e sairmos inteiros para os
novos relacionamentos. Quando não nos damos esse tempo, chegaremos ainda
partidos nas outras relações, muitas vezes esperando que o outro cuide de nós.
Assim já começa um padrão relacional cuidador-cuidado, que pode dar muito certo
se ambos gostarem cada um de seu papel ou pode dar muito errado se o
ferido sarar, não quiser mais ser cuidado, o cuidador não aceitar sair do seu
papel, e o ex-ferido ir embora.
Segundo Kübler-Ross, em seu livro* "Sobre a morte e o morrer" as fases do luto são: negação e isolamento, mecanismos de
defesas diante a notícia e do choque da perda; raiva da vida, do abandono ou de Deus; barganha, uma tentativa de negociar com o outro ou com Deus sobre a
perda; depressão - viver profundamente os sentimentos negativos da perda; e aceitação, redefinir a
perda da melhor maneira possível e seguir em frente. Tais fases não acontecem todas,
nem de forma cronológica, nem linear, mas na elaboração saudável do luto os
sentimentos dessas fases vão dinamicamente sendo vivenciados.
O luto se torna patológico quando há fixação e paralização
num tipo de sentimento e emoção, de onde o indivíduo não consegue sair. É comum
vermos enlutados relacionais se autopunirem por sentimentos de culpa, perseguirem
os ex-parceiros, armarem planos vingança (raiva direcionada para o exterior)
gastando horas do seu tempo em planejamentos macabros, ficarem deprimidos ao extremo
e engolidos pela dor, irem para as baladas ou para orgias fingindo e negando
seus sentimentos, ou fazendo inúmeras promessas e consultas com entidades esotéricas
que prometem trazer o amor de volta (veja o vídeo de humor do porta dos fundos). Geralmente essas loucuras feitas tem como
pano de fundo uma autoestima completamente destruída, uma falta de amor e de
valor próprio.
Lembro-me do filme "Um beijo roubado", dirigido por
Wong Kar-Wai e estrelado por Norah Jones, em que sua personagem, Elizabeth acaba de ser
traída e deixada pelo parceiro, começa a se confessar com o personagem de Jude
Law, Jeremy em seu charmoso café, se envolve com ele, mas escolhe sair pelo país
em busca de si mesma, encontrando em ressonância, uma série de pessoas também
enlutadas de diversas formas.
Considero a viagem da personagem como uma metáfora da “viagem”
necessária na busca por uma resolução emocional do luto. Apesar de inicialmente
existir esse desejo de fuga da atual realidade dolorosa, o processo emocional
do enlutado progride quando o indivíduo decide encarar a si mesmo, suas
dificuldades, suas implicações e problemas no relacionamento anterior, faz uma revisão
dos padrões adequados e inadequados e decide com quais pretende ficar ou
descartar, se propõe cuidar de si primeiro, das suas feridas, curá-las e voltar
a ficar inteiro para construir novas relações.
Há que se considerar que certos indivíduos vão vivendo
seus lutos dentro das relações, e quando acontece o fim espontâneo, escolhido ou alguma
traição que os motiva a sair da relação inicial, eles já estão com seus lutos
em processos mais avançados, o que lhes permite entrar em novas relações com
maior rapidez e sem prejuízos da perspectiva das elaborações do luto. Mas isso
é exceção. No geral, a maioria das pessoas nega seu luto, foge e passa por cima
do mesmo. Existe até culturalmente aquela fala que “só um novo amor cura o
outro”.
Um processo de luto será mais difícil de ser elaborado,
dependendo do tipo de perda (morte, separação, divórcio, etc.), da função que o
parceiro tinha na vida do outro e do momento do ciclo de vida do relacionamento
e dos indivíduos. Pergunte-se: O que o parceiro supria na minha vida? Como o
parceiro cuidava de mim? De quais aspectos do relacionamento eu sinto mais falta?
A perda aconteceu no momento de paixão? Ou próximo do casamento? Ou próximo da
chegada dos filhos? Ou com a perda de filhos ou outros parentes importantes? Ou
em momentos de crises financeiras ou pessoais?
Podemos considerar então, que as três principais tarefas
emocionais na elaboração das perdas relacionais são:
1.Viver e permitir-se viver a tristeza, a dor e todas as
outras emoções decorrentes da perda, respeitando seu tempo e buscando passar pelo período de luto com acolhimento
da dor ao invés de demasiadas fugas ou anestesias;
2.Revisar a relação anterior ponderando as coisas positivas
que gostaria de repetir nos próximos relacionamentos e as negativas que
gostaria de mudar. Em outras palavras, significa conhecer a si mesmo, seu
desejo relacional e amoroso que direcionará suas novas buscas;
3.Cuidar de si mesmo e das próprias necessidades de forma
adulta, para que a busca afetiva não seja apenas um depositário das carências afetivas
originais ou recentes.
Participe do texto deixando nos comentários, sua
experiência e contribuição!
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Continuando o tema traição iniciado no post anterior, neste texto fiz um apanhado geral na minha memória
clínica e vivencial, destacando onze aspectos motivadores da infidelidade, que
podem ser conscientes ou inconscientes dependendo do caso, e são bastante
comuns na nossa cultura. Defino tais aspectos de maneira generalizada, e em
apenas alguns casos aponto um padrão infiel mais comum para o homem ou para a
mulher.
1. História
Familiar
Verificando as histórias familiares e de casal até três ou
quatro gerações perceberemos se existem padrões de traição e se existe a permissão
explicita ou implícita para sua repetição. Filhos que vêm um pai ou mãe traindo
e as repercussões da traição para a pessoa que foi traída e para a família,
podem tanto se identificar com um ou outro lado, tendendo a repetir sua postura
nas próprias relações afetivas ou ficar assombrado com a possibilidade da
traição acontecer em sua vida e acabar atraindo ou inconscientemente
contribuindo para que ela aconteça.
Quando há uma grande reatividade emocional familiar, onde os pais se tornam vítimas
e algozes, será possível uma repetição do padrão traição de forma inconsciente
no futuro, especialmente quando os filhos são convidados a tomar partido de um
dos pais. Ficando presos nesse triângulo com os pais, tem mais chances de repetir triângulos
amorosos em suas vidas afetivas.
2. Insatisfação
no Relacionamento Principal
Algumas relações são razoáveis e outras ruins, mas o ser
humano tem uma dependência significativa de suas parcerias além de uma
inabilidade para melhorá-las. Enfrentar os problemas ou dificuldades do
relacionamento requer um posicionamento adulto dos indivíduos, mas poucos são
os que conseguem construir isso. DR - discutir a relação - é uma das coisas
mais assustadoras para muitos casais com padrões infantis de relacionamento. E
quando não há enfrentamento, não há solução, a relação se desgasta e abre
brechas que possibilitarão a entrada de terceiros.
A insatisfação também pode ser no aspecto sexual, mas
havendo uma dependência em outros campos, afetivo, financeiro, conceito de
casamento e família, o indivíduo preferirá ter um caso ou vários para atender
sua necessidade sexual, sem ter que abandonar a segurança do relacionamento
principal.
3. Crises
Pessoais
Passamos por diversas crises na vida, de idade,
financeira, de sentido, e todas elas nos deixam bastante vulneráveis. O indivíduo
vulnerável fica carente e nem sempre o parceiro consegue suprir emocionalmente
os vazios emocionais, mesmo em boas e razoáveis relações. É nesse
contexto que um terceiro muito bem intencionado, cuidador de carências, pode
aparecer e criar uma ilusão de poder salvar o outro de sua miséria existencial.
4. Busca por
novas aventuras
Geralmente o homem é altamente estimulado pela excitação
da novidade. A monogamia nesses casos é tediosa e maçante. Assim, se envolver
em novas seduções e conquistas se torna um esporte, alimentando sua necessidade
por emoções. Isto aplaca de certa maneira as angústias em relação ao casamento
ou relacionamento principal, gerando uma estabilidade no mesmo, e diminuindo
a possibilidade do término. Assim a traição serve para manter e não para
dissolver a relação oficial.
5. Afirmação
da Masculinidade
Como culturalmente viemos de uma tradição machista onde o
sexo está no cerne da afirmação da masculinidade, muitos são os homens que
traem com a necessidade de provar, geralmente para outros homens, que são
machos viris. Ficam presos aos valores culturais e ao medo de serem desvendados
de um masculino fragilizado.
6. Busca do Príncipe
Encantado
Também dentro da cultura machista, encontramos mulheres
que estão em relações muito desgastadas, sem terem suas necessidades atendidas
mas são extremamente dependentes, não conseguindo sair das relações com suas próprias
pernas. Elas recorrerão a traição numa tentativa de encontrarem o príncipe
salvador, que as resgatará de suas vidas secas. No geral se apaixonam pelo novo
parceiro e só sairão da relação principal se o "príncipe" fizer seu papel
salvador. Aqui a traição tem o objetivo de finalizar a relação anterior.
7. Competição, Jogos e Disputa de Poder
A disputa de poder em casais muito competitivos (ver texto
brigas de casal) é uma característica que pode alimentar ainda mais os padrões
de traição. Parceiros criam situações diversas de traições de fato ou jogos de sedução
para mostrar ao outro como não ficará pra trás nessa luta sem fim, competindo
por quem trai mais ou melhor, muitas vezes deixando ou sem deixar que haja
a descoberta mas semeando pistas que gerarão desconfianças.
8. Relações Abertas
Muitos casais estabelecem contratos onde a "traição"
(aqui estou restringindo o conceito de traição como a entrada de um terceiro, o
que não apreende a complexidade do termo) é permitida de três formas:
apenas o envolvimento sexual sem envolvimento afetivo;
quando o casal tem uma relação
parental (mãe-filho, pai-filha), um dos parceiros não gosta de sexo e o
outro tem que buscá-lo com alguém de fora;
numa poligamia mais explícita onde um
parceiro possui duas famílias distintas, seja por questões de sobrevivência e dependência
(exemplo: filme Eu, tu, eles), baixa autoestima ou por aceitação familiar-cultural.
9. Swing - Busca do Novo para Apimentar a Relação
O swing é uma prática de troca de parceiros dentro de um
grupo de casais ou em casas de swing, muitas vezes utilizada pelos casais como possibilidade de descobrir
novos jogos sexuais para trazer novas experiências para o relacionamento. Aqui também
estou restringindo o conceito de traição apenas a entrada de um terceiro, que
nesse caso é questionável já que existe um consentimento mútuo dos parceiros.
10. Identificação
com o Papel Masculino do Patriarcado
Por um lado, são aquelas mulheres que numa necessidade de autoafirmação
no relacionamento, na família e na sociedade, via reforçamento da igualdade de gênero,
incorporaram padrões culturais masculinos patriarcais, sendo a traição apenas um
deles. Sua identificação costuma ser com a figura paterna, e sua lógica
masculina também uma tentativa de ser reconhecida pelo pai.
Por outro lado, essa identificação com o pai assim como a
busca de reconhecimento também afeta os homens, podendo ser mais uma motivação
da traição deles.
11. Cisão da Mulher em Santa x Puta
Essa é uma visão
clássica do patriarcado, historicamente construída e reforçada até as mudanças geradas
pela revolução sexual, mas ainda sustentada pelo machismo, tanto de homens
quanto de mulheres, que reside em nossa cultura. A figura da santa seria daquela mulher pra casar, a
qual cuidará da casa, da família e dos filhos, eternamente fiel, tendo como
funções principais a materna e a doméstica. A figura da puta é responsável pelas funções sensual e sexual, onde o sexo é
permitido mais livremente, mas não há vinculação. Essa mulher geralmente é
chamada de fácil, gerando fantasias de infidelidade, e por isso é apenas para
ser usada, não servindo, portanto, para construir uma família. Tendo como crença
esses conceitos, fica implícita a permissão para a traição masculina.
Vale lembrar da música Pagu, composta por Zélia Duncan, interpretada por ela e Rita Lee:
A infidelidade é um
tema muito complexo, e com certeza ainda ficaram muitas facetas pendentes para
posts futuros. Independente das motivações que geram as traições, precisamos
compreender que uma relação se constrói com 50% de investimento de cada lado, e
em casos de traição, se a pessoa que foi traída não avaliar sua própria parcela de responsabilidade, ficará
presa no lugar da vítima e não transformará sua vida e relação. E se a pessoa
que traiu não avaliar suas crenças e motivações, poderá ficar repetindo e
revivendo, inconscientemente, seu próprio passado familiar, cultural e de seus ancestrais.