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segunda-feira, 12 de junho de 2017

DEIXAR IR

DEIXAR IR



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No ano passado, conheci uma pessoa que me despertou um interesse afetivo. Infelizmente não foi recíproco. Por motivos relacionados a minha história de vida e ao meu padrão de relacionamentos anteriores, eu acabei ficando apegada a essa pessoa. Segundo meu terapeuta, o meu apego está ligado a dificuldade de ser rejeitada. Mas quem lida bem com a rejeição?

Há um mês eu comecei a fazer um curso de Mindfulness – traduzido como atenção plena, consciência plena. No curso aprendemos meditações, e outras práticas e técnicas para treinarmos nossa mente a ficar mais plenamente focada no momento presente.

Como atitudes Mindfuness, foram apresentadas: ser grato, ter a mente de principiante, aceitar, ser paciente, não lutar, ser generoso, não julgar, confiar e o “deixar ir”. Este último me tocou mais, me despertando para um trabalho pessoal em relação ao desligamento do afeto que citei acima.

Essa ideia me estimulou a refletir sobre a experiência do apego nas relações amorosas. A princípio, podemos pensar que ficamos apegados às pessoas que nos fazem bem, ou que nos causam sentimentos amorosos. Sim, isso também acontece, mas o mais contraditório do apego, é que muitas vezes ficamos apegados a experiências ruins e que nos fazem sofrer.

Podemos fazer uma conexão com nosso conceito de amor, que foi construído nas nossas relações mais primitivas com nossos pais, irmãos e demais familiares de origem. Nem sempre o amor é vivido como algo bom e prazeroso. Muitas vezes há violência, negligência e abandono. Essas experiências nos marcam profundamente, levando-nos a entender o amor como tendo aspectos muito negativos.

Portanto, quando nos apegamos a situações e pessoas que nos fazem mal, provavelmente estamos repetindo o conceito de amor negativo das nossas origens.

Outro aspecto do apego tem a ver com as nossas expectativas. Muitas vezes nos apegamos ao nosso próprio desejo, refletido na pessoa do outro. Fixamos na ideia, não no real. O parceiro mostra muitas vezes que não quer ou não é capaz de corresponder aos nossos anseios, mas não queremos enxergar, e ficamos presos na ideia de ter um relacionamento com aquela pessoa, mesmo quando ela mostra o oposto.

Nesse sentido, estamos aprisionados numa fantasia infantil, e temos dificuldade de elaborar o luto da nossa criança interior que ainda deseja ser amada de uma forma bastante carente e idealizada pelo outro. Ela ainda fica tentando conquistar o amor do outro, sem aceitar sua própria impotência nesse quesito, sem aceitar a derrota. Acaba se agredindo mais ao ficar presa onde não é amada.

Complementando, outro aspecto importante associado ao apego é nossa tendência, desejo ou vontade de ter controle sobre os sentimentos do outro ou sobre nossa própria vida. Temos uma prepotência enorme quando acreditamos consciente ou inconscientemente nesse controle. Muitas coisas, de fato, podemos controlar, mas uma grande parcela nos escapa das mãos. Em termos de sentimentos, amor e relacionamentos, essa parcela é bem significativa.  

Aceitar que não temos esse controle, nos faz aceitar nossos sentimentos e os dos outros sem cristalizar a experiência, sem impor autoritariamente nossa vontade, nem desqualificar nossas emoções, respeitando ambos os lados.

O apego também pode estar relacionado a uma experiência positiva do passado que se acabou. As pessoas mudam, os relacionamentos mudam, a vida é muito dinâmica. A partir dessas mudanças as pessoas ficam diferentes e muitas vezes acabam perdendo suas conexões, suas afinidades e aquilo que inicialmente as uniu. Temos muita dificuldade de aceitar o que acabou. Queremos perpetuar o amor, mas o amor também é uma experiência dinâmica, um “bichinho com asas”, incompatível com gaiolas e enquadramentos fixos. Nos apegamos ao que foi bom, mesmo quando não conseguimos manter a qualidade da experiência atual. A falência e a separação são dolorosas.

O apego nos deixa presos. Nossa energia e investimento ficam focados em um lugar muito específico, limitando nossa experiência e a abertura para novas fontes de alegria e prazer no aqui e agora.

Quando nos desapegamos, nossos olhos se abrem para o novo e para todas as possibilidades de vida que existem ao nosso redor.

Deixar ir é permitir que vida se atualize sem opor resistência aos quesitos de realidade. Isso não significa que não possamos lutar pelo amor e pela pessoa desejada. Significa sim saber reconhecer nossos limites e nossa dignidade, até onde podemos e devemos ir, respeitando também os limites do outro.

Ao realizar esse trabalho comigo mesma, ao conseguir investir no desligamento do meu afeto passado, pude vivenciar outras experiências afetivas, que me ofereceram parâmetros novos e melhores de relacionamentos. São aprendizados que vão abrindo possibilidades de trocas mais maduras, dignas e saudáveis. Eu sempre me deparo com a sensação de ampliação da percepção amorosa.


O apego pode paralisar e até matar internamente. O amor é uma experiência viva que não sobrevive atrás de grades e muros. É preciso “deixar ir”, constantemente, seguir o fluxo, não resistir à correnteza... novos rios, novos mares...


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagram: @solteirosecasais


Referência da Figura:
1. Retirada do Google imagens

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

DESAPEGO – REFLEXÕES SOBRE APEGO E DESAPEGO

DESAPEGO

REFLEXÕES SOBRE APEGO E DESAPEGO

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Esta semana, conversando com um amigo que estava de mudança pra outro estado, fiquei pensando sobre a questão proposta no título. Na minha visão externa, ele seria uma pessoa muito desapegada para conseguir fazer essa mudança, pois foi por vontade própria, sem emprego fixo certo, e não tinha problema algum que justificasse sua ida, apenas seu desejo. Deixou pra trás amigos e clientes, sem lamentações e com alguma saudade.

Mas acredito que a questão seja um pouco mais complexa. O apego e o desapego não são apenas características intrínsecas da personalidade de um indivíduo. Precisam também ser contextualizados no tempo e no espaço uma vez que certas experiências demandarão uma ou outra postura, independentemente do desejo do indivíduo.

Talvez possamos falar em experiências de apego e de desapego, e possamos refletir sobre qual experiência precisamos viver e aprender no momento presente.

Profissionalmente, no meu caso por exemplo, como meu trabalho de terapeuta precisa de um processo a longo prazo pra construir uma clientela maior, eu posso me considerar muito apegada ao lugar que cheguei hoje aqui em BH. Por outro lado, já comecei um processo de desligamento do meu trabalho em Divinópolis, minha cidade de origem onde ainda trabalho, e meu desapego está relacionado ao cansaço de ter que viajar com frequência desde 2007. Mas como meu amigo, mudar para outra cidade ou estado seria muito difícil pra mim também por uma questão de sobrevivência. Consegui me sustentar em BH nos primeiros anos porque tinha o trabalho de Divinópolis, mas ir para outro lugar, trabalhando apenas como terapeuta, e sozinha, geraria um problema de sobrevivência.

Dessa forma precisamos considerar que a experiência de apego pode estar muito ligada a uma questão de Sobrevivência, física e emocional. Alguns casamentos falidos se sustentam ao longo do tempo muitas vezes em função da sobrevivência financeira, quando um dos cônjuges não trabalha e depende do trabalho e dinheiro do outro. Assim também acontece com outras relações que se sustentam porque os indivíduos são extremamente dependentes e não conseguem viver sozinhos. Preferem ficar em relações abusivas, agressivas e violentas na medida em que ficam completamente apavorados com a solidão.

Outra experiência de apego se refere ao Material. Muitas pessoas investem toda sua energia em possuir bens de consumo duráveis e não duráveis. Por trás desse tipo de apego podemos encontrar questões como a necessidade de status, sendo esta uma busca por conseguir o reconhecimento alheio e por ser valorizado pela quantidade ou qualidade das coisas que possui. Também existe o apego material pela necessidade de segurança através do acúmulo de bens, que também esconde o medo de passar falta e a insegurança interna. Há também a experiência dos acumuladores compulsivos, que está mais ligada a problemas emocionais do passado os quais são “anestesiados” com a referida compulsão, e o possível esvaziamento do acumulado só aconteceria se houvesse a possibilidade de encarar o buraco emocional.

O apego a uma Fantasia Idealizada é algo que todos nós vivemos, como a idealização de pai e mãe, de parceiro, de filhos e família. Sonhamos com um tipo de vínculo amoroso e projetamos isso nos nossos relacionamentos. No entanto, nosso desejo não condiz com a realidade humana e passamos uma vida tentando fazer as pessoas próximas se encaixarem aos nossos ideais.

Por falar em família, um outro apego muito repetitivo refere-se aos Padrões da família de origem, que representam uma lealdade ao que aprendemos, mesmo que muitas vezes esse aprendizado vá contra nossos próprios desejos atuais. Tal apego nos aprisiona de forma inconsciente, na maioria das vezes, o que dificulta muito nossa percepção consciente e possibilidade de mudança.

Quando possuímos um conceito de amor muito ruim, quando o amor em nossas famílias estava relacionado a distância afetiva, abandono, agressão ou violência, podemos desenvolver um apego ao Sofrimento, que pode nos levar a buscar situações problemáticas, de forma compulsiva.

O apego por Amor talvez seja um dos mais saudáveis, desde que os indivíduos não utilizem da ideia de amor relacionada a dependência, justificando todas as tentativas loucas de aprisionamento do outro. Este apego está ligado a uma interdependência onde o afeto transita numa via de mão dupla numa relação de troca. Há confiança, entrega e segurança, sem necessidade de prender ou aprisionar o outro.

A experiência do desapego, como a do meu amigo citado no início, soa muitas vezes como uma maior capacidade de um indivíduo para a Liberdade. Mas nem sempre isso é real.  Muitas vezes o desapegado se esconde atrás de uma dificuldade ou incapacidade para vincular-se com outras pessoas e de se entregar nas relações afetivas de amor e de amizade. Dessa forma, uma pessoa apegada pode estar mais livre pra amar e se entregar do que outra desapegada.

A pessoa que parece mais desapegada a alguma questão específica, com certeza será apegada a outra. Por exemplo um homem que não quer se comprometer seriamente num relacionamento porque quer aproveitar a vida, pode estar apegado a uma ideia de liberdade que existe em ser solteiro, ou a uma ideia don-juanesca de conquista, ou ainda numa necessidade de afirmação da masculinidade via sexo.

Portanto, não existe uma pessoa completamente desapegada. Ela só parecerá mais desapegada se o seu desapego for em algum tema culturalmente ou socialmente fora do padrão. Seus verdadeiros apegos ficarão ocultos uma vez que não são evidentes nem conscientes pra ela nem ao olhar do outro.

Diante de todas essas questões, o desapego ou o apego por si só, não são bons nem ruins. Eles precisam ser contextualizados na história e no contexto de vida atual do indivíduo. Enquanto algumas pessoas precisam aprender a experiência de desapego, outras precisarão experimentar o apegar-se a alguém ou algo, como possibilidade de crescimento na vida.

É preciso ter coragem para apegar-se ou desapegar-se, é preciso ter coragem de correr o risco. Qual é a sua necessidade, estimado leitor? Compartilhe conosco deixando seu comentário no espaço abaixo!


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais

Referência da Figura
1 - retirada do google imagens

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quinta-feira, 2 de julho de 2015

DESAPEGO

DESAPEGO

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Chegam momentos na vida quando é preciso desapegar. Desapegar das malas velhas, dos sapatos estragados apesar de adorados, das roupas que não servem mais, dos amores findos e dos desejos não realizados.

Desapego é uma palavra que mais dia menos dia irá nos enfrentar cara a cara, sem termos de negociação, mesmo que doa ao coração. 

Tem relacionamentos que são assim, nos apegamos tanto que não sabemos sobre-viver sem eles. Eles podem envelhecer, estragar, machucar, martirizar, adoecer, desencantar, até apodrecer, mas continuamos lá, apegadíssimos aos restos mortais.

Por que é tão difícil desapegar mesmo do que está ruim ou no fim? Porque na verdade, quando o relacionamento já morreu, continuamos apegados a fantasia do que ele foi um dia, suas delícias que ficaram registradas na memória, ou a própria fantasia de onipotência, de nos acharmos deuses poderosos capazes de ressuscitar o morto.

Outra possibilidade é ficarmos viciados em um modus operandi negativo, desprazeroso, que é bastante conhecido nas nossas histórias de origem, individual e familiar, onde aprendemos que os padrões de relacionamentos funcionam sempre no tanque vazio. Assim, tendemos a aceitar e nos apegar em relacionamentos ruins, repetindo nossas histórias de apego.

Nos apegamos também as nossas próprias crenças do que devia ser (mas não é): “casamento é para sempre, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza”. Nos apegamos a nossa teimosia de tentar sempre, mesmo quebrando a cabeça todas as vezes. 

Também ficamos apegados a uma ideia de não podermos ser derrotados, como se admitir o fim do relacionamento fosse perder o jogo, se sentir fracassado, e assim nos apegamos a uma disputa de poder com o outro e com a vida, continuando a lutar uma guerra mesmo quando a batalha já se acabou.

E quando não há um relacionamento, nos apegamos ao desejo de ter um, e fazemos da vida um inferno por não possuí-lo. Tudo gira em torno da busca relacional. Ficamos apavorados com o tempo que está passando e o relógio biológico que está correndo a galopes de um cavalo selvagem. Enlouquecemos atrás de cartomantes, astrólogos, videntes, tudo para ter a tão sonhada previsão positiva do futuro e desesperamos se a desejada notícia não está escrita em nenhuma carta, atro ou visão. 

É preciso desapegar! Quanto mais ansiedade temos em relação ao objeto do nosso apego, menos chance ele tem de dar certo, de funcionar, ou de acontecer em nossas vidas.

Desapegar é preciso, pois enquanto estamos fixados numa ideia específica, a vida nos está oferecendo inúmeras outras possibilidades, as quais estamos deixando passar todas, devido ao nosso aprisionamento em nossas viseiras conceituais.

Reveja seus conceitos! Não seriam eles moldados por uma ditatura subliminar da família, da sociedade, da religião ou da cultura sobre como a vida deve ser? Não estariam eles desgastados e retrógrados para seu momento atual? Eles não estariam limitando sua alegria, felicidade e liberdade potenciais? Desapegue dos seus próprios conceitos! Crie outros novos!

Por mais que doa, jogar as malas velhas fora é libertador! Vida nova pela frente. Mas é preciso coragem pra enfrentar a dor do luto. Desapegue também da dor ou melhor, do sofrimento, como diria nosso querido Carlos Drummond de Andrade, “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”.



Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte

Referência da Figura
1 –imagem retirada do google imagens

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