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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

VAMOS SAIR PRA JANTAR?



VAMOS SAIR PRA JANTAR?

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Conheci mais uma doce andorinha (conferir post “A Andorinha e a Rosa”). É fato consumado: minha atração pelos homens andorinhas migratórias. Provavelmente eu ainda não conquistei definitivamente minhas próprias asas e acabo buscando as asas alheias.

O fato é que uma certa andorinha, que está prestes a voar para viver o verão em outros ares, me convidou pra jantar. E quanto tempo fazia que eu não recebia um convite desses!!! Com muita alegria e prontidão eu aceitei, claro!

Um convite pra jantar é muito diferente de um convite pra ir num bar, boteco, ou balada. Ele me remete a um desejo de intimidade. Quero te conhecer, saber quem você é, conversar. Quero que você me conheça, saiba meus projetos, minhas conquistas e minha forma de viver. 

Utilizando essa ideia como metáfora, “Convite Jantar” e “Convite Boteco”, notamos que infelizmente, o padrão mais recorrente é o dos “convites boteco”. Estes levam mais rapidamente ao final desejado: o sexo, principalmente se o encontro for bem regado a álcool. Nestas situações não existe muito aprofundamento na intimidade. As conversas são rasas apesar de alegres e divertidas, tendo portanto seu valor.

Já no “convite jantar” está implícito um desejo de aprofundamento, o que não significa que irá acontecer. As vezes o encontro se dá entre pessoas diferentes, um que deseja e outro que não deseja a intimidade aprofundada.

Que fique claro aqui, que a ideia de intimidade que estou usando não está relacionada a sexo, confusão conceitual muito comum. Está sim ligada a autorevelação e ao conhecer o parceiro, incluindo assim o compartilhamento de ideias, mas principalmente de sentimentos (conferir post “Intimidade não é sexo”).
 
O meu encontro com a andorinha foi bastante correspondente ao “convite jantar”. Mas infelizmente o tempo de um encontro apenas é bem pequeno. A intimidade que conseguimos construir ainda ficou rasa, pois o aprofundamento requer tempo. Geralmente quando conhecemos alguém, buscamos na sedução, mostrar nossas melhores partes. Os defeitos só vão aparecendo com a convivência, e é quando a intimidade é mais colocada em xeque. Nos apaixonamos pelo ideal de parceiro que temos, e quando chega a realidade, ao invés de investirmos mais para extrair da relação o que ela pode ter de bom, acabamos “pulando fora do barco” ou continuamos na relação, mas de uma forma indigna.

Construir intimidade é um grande desafio. É preciso muitos “convites jantar” ao longo do tempo. 

Eu fico impressionada em quantas pessoas, homens e mulheres, reclamam que não conseguem ter um relacionamento na atualidade. Existe um desencontro que, em minha opinião, acontece muito porque as pessoas não agem conforme seus verdadeiros desejos. Elas dizem que querem encontros “jantar”, mas se comportam sempre (ou acabam aceitando resignadas) como se quisessem encontros “boteco”, ou seja, o comportamento não é coerente com o desejo e o pensamento.

Por outro lado, como o autor Flávio Gikovate escreve em seu livro “Uma nova visão do amor”, existe uma série de fatores antiamor que são formas inconscientes de boicotar o amor, que o próprio indivíduo faz contra si mesmo, dentre eles o medo de ser feliz. Isso é mais comum do que imaginamos, pois muitas vezes entramos em processos compulsivos de repetir o conceito de amor que recebemos da nossa família de origem, e este conceito pode ser muito negativo. Assim acabamos infelizes por pura lealdade familiar inconsciente.

Outro problema é que “convites pra jantar” caíram em desuso. Como disse acima, não sei quanto tempo fazia que eu não recebia um desses. Vivemos a cultura da ansiedade, do imediatismo e do descartável, o que não combina muito com viver um processo de aprofundamento e construção de intimidade, pois estas coisas levam tempo e requerem muita dedicação.

Outras culturas vivem isso com maior facilidade. Sempre assisti em filmes e ouvi relatos de amigos que foram viver no exterior (EUA e Europa), que as pessoas, quando interessadas em alguém, sempre convidam seus parceiros em potencial para jantar, e vão se conhecendo aos poucos até definirem se entram ou não numa relação. Tem também o livro da Sobonfu Somé, "O espírito da intimidade", que fala desse tema do título numa visão da cultura africana.

Acredito que precisamos definir quem somos em primeiro lugar e agir coerentemente com nós mesmos. Eu sou o tipo de pessoa para “encontros jantar”. E você, estimado leitor?

Sobre a doce andorinha do jantar, pena que ela está alçando voo para ir-se embora. Esta é uma daquelas situações quando a gente lamenta pela “vida não vivida”, tudo aquilo que ficou apenas no desejo, mas que não aconteceu, infelizmente.


Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais

Referência da Figura
1 - retirada do google imagens

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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

REFAMÍLIA – A FAMÍLIA DE AMIGOS DO CORAÇÃO

REFAMÍLIA

 A FAMÍLIA DE AMIGOS DO CORAÇÃO




Já faz um bom tempo que não escrevia um texto para o blog. Nessas últimas semanas estive bastante ocupada com trabalho, com as responsabilidades rotineiras e com viagens e não consegui sentar para escrever apesar de pensar em várias ideias e temas. E como o motivo das minhas viagens foi para encontrar amigos, decidi falar sobre o quanto a amizade é importante na minha vida.

Há algum tempo eu venho trabalhando na minha terapia pessoal, pela diminuição das expectativas que eu tinha com meus pais. Eu esperava muito deles no sentido afetivo e amoroso, coisas que eles não podiam (e nem podem) me dar, devido as limitações emocionais humanas de cada um. Durante muito tempo eu cobrei, fiz jogos emocionais, corri atrás, denunciei e nada disso adiantou para que eu recebesse deles o que realmente desejava.

A terapia me ajudou a enxergar a realidade nua e crua, a aceitá-la e a caminhar adiante aprendendo a cuidar de mim em primeiro lugar, para não ter que ficar esperando que esse amor idealizado venha das fontes parentais.

Quando eu deixei de esperar receber amor das figuras específicas dos meus pais, um mundo de possibilidades se abriu ao meu redor, e eu passei a enxergar quem estava ao meu lado me oferecendo atenção, carinho, amizade, colo, acolhimento, ouvidos, cuidado, conselhos, prazeres, companheirismo, alegria e amor.

As relações de amizade podem ser muito ricas, nos oferecendo uma verdadeira intimidade, que nos nutre fisicamente, emocionalmente e espiritualmente, cumprindo uma função familiar em nossas vidas.

Por isso falamos terapeuticamente em Refamília. Quando estabelecemos relações de amizade que são tão profundas que se assemelham as funções familiares, paternas, maternas e fraternas, então estamos construindo uma Refamília.

Não podemos confundir a Refamília com a projeção das carências infantis nas amizades. Algumas pessoas só transferem a expectativa de amor que sentem pelos pais para os amigos, passando a cobrar destes o que não receberam da família de origem. Isso não significa que tenham aprendido a cuidar de si mesmas, nem acolhido suas carências infantis. Ainda estão na expectativa de serem amadas pelo outro.

Para atrair relações de amizade nutridoras, precisamos também estar nutridos por nós mesmos, senão, atrairemos amizades tão sugadoras e carentes quanto nós. Se conseguirmos nos alimentar de amor, aí sim poderemos também alimentar nossos amigos, oferecendo afeto e cuidado para eles.

Na Refamília as relações estabelecidas são de troca. Cuidamos e somos cuidados, amamos e somos amados, doamos e recebemos. Não há cobranças, mas também não há ausências ressentidas. Respeitamos os limites do outro e suas indisponibilidades porque temos a segurança de sua presença amorosa.

A distância não é um problema quando os corações estão perto. Tenho amigos que moram em outras cidades bem longe e apesar dos quilômetros que nos separam, eu me sinto muito amada por eles. Esses que visitei nessas últimas semanas, me fizeram sentir especial. Fazem questão da minha presença, cuidaram de me receber da melhor forma possível, se preocuparam com a minha alimentação, fizeram programações deliciosas comigo, me ouviram, e pudemos compartilhar intimamente nossas questões emocionais.

Mas se os corações não estão perto, não adianta que as residências sejam na mesma cidade ou bairro. A pessoa não se faz presente na sua vida e fica um sentimento de vazio, de falta e de insegurança do amor, por mais que você goste dela e vice-versa.

Outro dia vi um daqueles posts no facebook falando que as amizades de verdade nunca acabam. Eu não acredito nisso. Eu acredito que as amizades se constroem por afinidades emocionais mais profundas, e muitas vezes, quando estas acabam, ou quando um dos amigos se transforma tanto e fica muito diferente do outro, o laço pode ser rompido mesmo quando não há uma briga por alguma coisa específica. Lidar com as diferenças é muito difícil e as vezes uma ou ambas as pessoas não conseguem. Eu tive amigos que se foram, mas enquanto duraram, essas amizades foram verdadeiras e tiveram seu valor.

Hoje eu dou mais valor e prioridade para aquelas relações onde há troca e interesse mútuo. Prefiro as amizades onde há uma via de mão dupla e não apenas uma via de mão única.


Sou muito grata e feliz com a minha Refamília. Amo vocês!

Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte
Instagran: @solteirosecasais

Referência da Figura
1 - retirada do google imagens
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