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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

SEXO FAST FOOD

SEXO FAST FOOD


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As conquistas alcançadas pós Revolução Sexual, anos 1960-70, foram muito significativas no sentido de uma maior liberdade na vivência da sexualidade. Muitos mitos e padrões sociais foram questionados e transformados. Juntando esta revolução com o Movimento Feminista iniciado na mesma época, a liberdade sexual também alcançou as mulheres, com o advento da pílula anticoncepcional e as iniciativas para legalização do aborto (conquistada em alguns países).
Apesar de uma série de movimentos religiosos que vão contra essa perspectiva, hoje conseguimos vivenciar uma maior liberdade sexual, o que não significa que exista uma verdadeira entrega ao prazer.
Conseguir uma transa é muito fácil. É só você ir para uma balada qualquer e seduzir alguém que também esteja com essa intenção. Muitas baladas funcionam como um fast food do sexo, basta escolher, “pegar”, propor e conseguir.
De fato é muito bom ter essa liberdade de conhecer alguém numa noite, sentir um desejo físico intenso e dar vazão a este tesão do momento, numa transa sem compromisso.
Mas vejo três problemas decorrentes dessa banalização e amplificação do sexo fast food, vejamos:

1) Falta de Qualidade
Para se ter um sexo com qualidade, é preciso que cada parceiro conheça o outro e tenha um mínimo de intimidade para saber o que, e como, o outro gosta de ser tratado na cama. Esses encontros casuais, definitivamente não promovem essa intimidade em tão pouco tempo, e portanto, o sexo será mais egóico, egoísta, cada um tentando se satisfazer e chegar ao gozo tão desejado.
A falta de qualidade também está ligada a inabilidade das pessoas em se conhecerem e a suas preferências sexuais, assim como a dificuldade de expressá-las. Se numa relação afetiva já é difícil comunicar, imaginem numa transa sem compromisso?

2) Falta de Entrega ao Prazer
Este tópico é bem contraditório, pois ao mesmo tempo em que parece que transar de primeira é uma entrega ao puro prazer, por outro ângulo, esse prazer é limitado numa vivência mais genital da sexualidade. E a sexualidade é muito mais ampla do que a genitalidade. Entregar-se genitalmente ao outro não é o mesmo que entregar-se por inteiro ao outro, genital, sensorial, emocional e vincular.
Transar muito e com parceiros diferentes pode significar inclusive uma incapacidade para se envolver emocionalmente, e possivelmente também uma grande defesa contra a criação de vínculos afetivos.

3) Banalização do Envolvimento
Como transar ficou muito fácil e fast food, parece que homens e mulheres seguem numa busca do encontro perfeito, que nunca ocorrerá, pois sempre ficará a ilusão de que a “grama do vizinho é mais verdinha”. E fica também o aprisionamento na perspectiva do “e se tiver alguém mais interessante na próxima balada?”.
Envolver-se ficou fora de moda. Convidar o outro pra sair e conversar, tomar um café, um almoço ou jantar, igualmente retrô. Eu admiro outras culturas onde as pessoas fazem estes tipos de convites e se dão o direito de correr o risco do envolvimento. Na nossa cultura parece que as pessoas têm tanto medo de se envolver que elas paradoxalmente se envolvem rapidamente no sexo para não envolverem afetivamente.
E o pior de tudo é que elas fogem dos seus anseios mais profundos de intimidade e amor.

Me lembro das ideias do autor Flávio Gikovate, em seu livro “Uma nova visão do amor”, onde ele aborda os nossos vários fatores antiamor, sendo dois deles o medo de sermos amados e o medo de sermos felizes. Assim, somos nós os maiores sabotadores do amor e da felicidade em nossas vidas.
Não vejo problema algum na liberdade sexual, mas vejo um sério problema cultural nos quesitos intimidade, envolvimento e amor. Mas infelizmente estamos mais preocupados com o desempenho e a imagem do que com o aprofundamento relacional e pessoal.
Onde você se encaixa, querido leitor? Deixe uma mensagem no espaço para comentários abaixo. Assim vamos enriquecendo e aprofundando estas questões!


 Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica
em Belo Horizonte

Referência da Figura
1 - Retirada do Google Imagens
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segunda-feira, 2 de março de 2015

AUTOEROTISMO – INTERDITOS E LIBERTAÇÃO

AUTOEROTISMO

INTERDITOS E LIBERTAÇÃO


autoerotismo, sexualidade, sexo, 5 sentidos, singing in the rain, revolução sexual,feminismo, patriarcado, prazer
Gostaria de iniciar este post esclarecendo que não vou falar do autoerotismo segundo o embasamento da teoria psicanalítica, mas sim do autoerotismo como a capacidade que cada indivíduo tem de promover o prazer erótico para si mesmo, e de como a família e a cultura acabam por interditar o desenvolvimento desse aspecto da vida.
Desde o início do desenvolvimento da sexualidade humana, várias são as crenças negativas que a família transmite para o indivíduo, muitas delas embasadas nos mitos construídos pela sociedade e pela religião, onde o prazer do corpo é conotado de forma péssima, com diferentes intensidades e perspectivas para homens e mulheres.
Numa perspectiva bastante arraigada, para as mulheres, viver e admitir esse prazer as transforma em putas e vagabundas, ou mulheres fáceis. Para os homens, como a afirmação da masculinidade passa pelo sexo, parece que eles estão livres por serem mais incentivados nessa área. No entanto, ter que afirmar-se via sexo já é uma prisão em si, pois seu desejo não pode ter escolha.
Quando a criança começa a descobrir o prazer no próprio corpo e nos genitais, e masturba na sua maneira infantil, ela está apenas explorando as sensações prazerosas que sente. É o adulto quem intervém, muitas vezes de formas agressivas, corrigindo, xingando e brigando com a criança, que não entende o que está acontecendo, mas registra suas primeiras interdições e proibições.
Em decorrência disso, o autoerotismo fica muito prejudicado, muitas vezes negligenciado, cheio de culpa ou vivido compulsivamente.
Apesar da revolução sexual do século passado, o que vejo na prática clínica são pessoas vivendo sexualidades limitadas ou doentias. Seja pela ausência da masturbação ou por sua prática com sentimentos de culpa, seja na compulsão sexual que não gera saciedade, mas sim mais necessidade de masturbação ou sexo, ou seja pelas disfunções sexuais como ejaculação precoce, impotência sexual, frigidez, etc., podemos perceber o quanto a vivência do prazer não é algo bem resolvido para uma grande parcela da população.
Por trás desses problemas, o que encontramos são conceitos de ser homem e ser mulher restritivos, que enquadram as pessoas em formas pré-estabelecidas e limitam mais ainda suas maneiras de estar no mundo. As concepções do patriarcado estão longe de serem dizimadas. Suas influências somadas as influências do feminismo, nos fazem encontrar hoje masculino e um feminino em crise, bastante confusos, mas com possibilidades de construção de algo novo.
É dentro desse contexto histórico, familiar e cultural que estabelecemos ou deixamos de estabelecer uma relação com nosso corpo. Relação esta que pode ser de senhor x escravo, amantes, amigos, “colegas de quarto”, ou desconhecidos. Algumas dessas relações simplesmente ignoram qualquer resquício do autoerotismo.
Recuperar ou descobrir o autoerotismo requer, em primeiro lugar, que revejamos nossas crenças sexuais mais infantis e adolescentes, e também nossos aprendizados dos mitos sobre a sexualidade, avaliando como eles ainda têm poder sobre nós. Um enfrentamento consciente e uma renovação de crenças se faz necessário num processo de cura da relação com nosso corpo.
Segundo, é fundamental que ampliemos nosso conceito de erotismo, que geralmente tem o foco nos genitais. A capacidade de viver prazer erótico não é restrita de forma alguma a sexualidade genital. Nosso corpo é erótico em seus cinco sentidos: audição, olfato, paladar, tato e visão. Quem nunca sentiu prazer de comer uma comida gostosa, ou de ouvir uma música que gosta ou um elogio, ou de ver uma paisagem bela, ou de sentir um bom perfume, ou de ser tocado em partes inusitadas do corpo? Pois existe todo um campo sensorial a ser descoberto e sentido.

Em terceiro lugar, da mesma forma que encontramos tempo pra trabalhar, pra estudar, pra cuidar das coisas da vida e da família, precisamos dedicar um tempo para descobrir o prazer ou pelo menos estar atento ao que dá prazer no dia a dia. Por exemplo o momento do banho e pós-banho é um ótimo tempo para se dedicar ao corpo, senti-lo e erotizá-lo. 
Lembro-me de um dia que voltava pra casa a pé, numa chuva razoavelmente forte, onde apesar de estar com a sombrinha aberta, eu molhava muito, e como a sensação da chuva tocando o meu corpo e a lembrança da música “singin’in the rain” , comecei a tirar a sombrinha para sentir a chuva, e senti um prazer autoerótico nesta situação.
Ou seja, o autoerotismo não está relacionado apenas com o estar nu e fazer uma masturbação, mas sim com toda vivência prazerosa no corpo, com toda vivência sensível, quando o indivíduo se dá a permissão de sentir, último tópico desse post.
O sentir é algo encontrado depois que “descascamos as várias camadas” das defesas que vamos construindo ao longo da vida. Criamos muitas defesas sim, pois o sentir está ligado ao bom e ao ruim ao mesmo tempo, e na tentativa de bloquear sentimentos e sensações ruins vindos do externo, vamos sobrepondo camadas invisíveis e as vezes visíveis (gordura e rigidez muscular por exemplo) de proteção, que na verdade são ilusões de proteção.
Em outras palavras precisamos escolher se vamos correr o risco de ficarmos vulneráveis. Infelizmente muitas pessoas não escolhem ou não conseguem escolher pois o medo de ser ferido é muito maior. Quando os bloqueios são mais profundos, uma ajuda psiquiátrica e/ou psicoterapêutica é fundamental.
Você está disposto a correr o risco, estimado leitor? Compartilhe conosco suas impressões sobre o texto no espaço para comentários abaixo!

Referência das Figuras
retirada do google imagens.

🙋🏻‍♀️Eu sou Adriana Freitas
Psicóloga e Terapeuta Sistêmica com mais de 21 anos de experiência, e estou à disposição para te ajudar.
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Adriana Freitas 🐛🦋 Saúde Total e Integral
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sexta-feira, 11 de abril de 2014

SEXUALIDADE MASCULINA - INTERDIÇÕES DA CULTURA

SEXUALIDADE MASCULINA

INTERDIÇÕES DA CULTURA 

relacionamentos, sexualidade, masculino, homem, cultura, feminismo, crise masculino

Quando falamos de movimento feminista, destacamos as mudanças alcançadas pela busca  das  mulheres  em relação ao papel cultural feminino, mas muitas vezes faremos uma leitura reduzida se não avaliarmos também a força cultural sobre os homens e suas definições de papéis.
A cultura e tão determinante para os homens quanto o é para as mulheres. Se hoje temos um masculino da forma como se apresenta, com certeza a força cultural, juntamente com a familiar reiterando a primeira, têm grande parcela no reforçamento dos papéis e comportamentos ditos masculinos. Podemos dizer que nós, mulheres e homens, repetimos inconscientemente os ditames culturais, até que tenhamos consciência crítica sobre os mesmos.
Segundo João  Silvério Trevisan em seu livro "Seis balas num buraco só - a crise do masculino", a masculinidade está em crise, uma vez que os aspectos que a garantiam no passado estão falidos ou em processo de falência. As transformações históricas que inviabilizaram a manutenção do mito masculino incluem as conquistas do movimento feminista com a consequente decadência do patriarcado.
Sem conhecer ainda um modelo adequado, muitos homens recorrem a violência social e intrafamiliar, numa tentativa de autoafirmação contra sua insegurança de base. Por outro lado, podem tentar encontrar formas de  compensação para suas frágeis  estruturas internas numa  busca estruturação a partir de elementos exteriores. Nesse contexto, três saídas divergentes se destacam: o  trabalho obsessivo - workaholic - para ter reconhecimento externo através do trabalho e do dinheiro; as academias de ginástica,  com foco na construção corporal externa - body building - para compensar uma falha interna; e a sedução don-juanesca, com uma fixação na sexualidade sem admitir compromissos afetivos.

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Culturalmente, a feminilidade acontece naturalmente, apenas com o amadurecimento corporal para a procriação. Já a masculinidade será construída num espaço social e político, onde é demandado ao homem que prove sua masculinidade.
Dessa forma, um dos aspectos mais cobrados ao homem heterossexual para comprovar sua masculinidade tem a ver com sua sexualidade. Ele tem que ser o "pegador" e o "comedor". É cobrado dele que deseje qualquer mulher que se lhe ofereça. E quando ele não quer, ou  tem que fazer de conta ou sua masculinidade será colocada em questão. Tal pensamento machista advém tanto dos homens quanto das mulheres. Já vi mulheres chamarem homens de gays quando são rejeitadas.
Trevisan também fala de uma construção da masculinidade em oposição ao feminino e consequentemente um medo da homossexualidade, sendo necessário ter pensamentos, sentimentos e comportamentos diferentes das mulheres para provar que é macho. Dessa forma, ser homem é restringir-se, conter e cortar seus "impulsos" femininos, o que limita profundamente as vivências afetivas e o sentir do homem.
Para o homem homossexual assumido que já se aceitou internamente, como já passaram por esse questionamento da masculinidade e já integraram o aspecto feminino de sua personalidade, muitas vezes não ficam presos a necessidade de provar que são homens. Mas quando ainda não se aceitaram, podem ficar compulsivos sexualmente, compulsivos no trabalho, e colocar uma máscara e uma armadura para se esconderem ainda na tentativa de se afirmarem como homens na perspectiva machista cultural.
Ter que provar sua masculinidade via sexo é um grande aprisionamento para o homem e prejudica sua liberdade de expressão, sua busca de prazer e seus relacionamentos amorosos.
Para este homem aprisionado, o pênis se torna um foco importante, e o seu  tamanho se torna uma problemática considerável. É comum homens com tamanho peniano menos avantajado criarem estratégias compensatórias para sua masculinidade comprometida, utilizando das chamadas extensões fálicas como  por exemplo armas e violência, dinheiro, carros ou  motos - grandes ou caríssimos - e corpos malhadíssimos, esportes radicais, fanatismo por futebol, etc. Extensões estas que não resolvem sua insegurança nem garantem sua masculinidade, servindo apenas de máscaras provisórias e ilusórias.
relacionamentos, sexualidade, masculino, homem, cultura, feminismo, crise masculinoOu seja, nenhuma dessas estratégias soluciona a baixa autoestima desses indivíduos, tampouco lhes proporciona uma sexualidade prazerosa e saudável. Nas relações amorosas, o sexo será vivido de forma compulsiva ou insegura, limitado a genitalidade e apresentando disfunções sexuais, com comprometimento da intimidade, da afetividade e da possibilidade de uma conexão mais profunda com a parceira ou parceiro.
É necessário que o homem abandone a dicotomia aprisionante de ser homem  versus ser mulher, integrando o feminino como parte saudável de si mesmo. Enquanto o homem não se questionar a respeito de seu conceito de ser homem, de sua escravidão cultural, seus modelos masculinos familiares (em outro texto abordarei as questões paternas e maternas na construção da masculinidade), e decidir mudá-los, estará fadado a viver um masculino limitado, aprisionado em frágeis estruturas externas. 
Psicoterapeuta Sistêmica em BH


Imagens:

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

SEXUALIDADE FEMININA - MARCAS PROFUNDAS DA CASTRAÇÃO

SEXUALIDADE FEMININA

MARCAS PROFUNDAS DA CASTRAÇÃO


Mesmo com a liberação sexual adquirida pelas mulheres em consequência dos movimentos feministas, o que tenho visto na prática clínica e em relações de amizade, são mulheres ainda profundamente castradas, vivendo uma sexualidade medíocre, sem utilização de todo seu potencial e sem vivenciar todo prazer que lhe seria possível.
A falta de libido ou uma libido embotada, escondida, é um dos sintomas mais corriqueiros da sexualidade feminina castrada. A escassez ou a total falta da masturbação é impressionante! Assim, as mulheres deixam de viver uma sexualidade individual e saudável e por consequência, deixam de exalar uma energia sexual que é importante no processo de sedução, conquista e manutenção dos relacionamentos.
Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.Um outro sintoma da sexualidade castrada é a prática sexual sem a vivência do prazer. Muitas mulheres praticam sexo ou compulsivamente ou com uma frequência razoável, porém estão ali apenas como numa performance teatral, atuando ser o que não são e sentir o que não sentem na realidade. Não há entrega tampouco aquele prazer mais profundo que une o físico, o emocional/afetivo e o relacional. Talvez apenas um prazer de ordem física por estimulação genital. E infelizmente elas acabam atraindo parceiros que comprovam suas crenças sobre um prazer limitado.
Um filme onde identifiquei questões interessantes sobre a castração é “Shortbus”, dirigido por John Cameron Mitchell, onde uma das personagens é uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo. Ela e outros personagens se encontram em Shortbus, um clube underground que mistura arte, política, música e sexo, tendo que se deparar com suas questões que a impedem de sentir o prazer.
A castração também marcou meu corpo. Eu fui criada para casar virgem. Minha mãe, em seus valores religiosos católicos, me ensinou “direitinho” a premissa da virgindade com alguns agravantes: homens não prestam! Se você fizer “o que eles querem”, eles vão te usar e depois te abandonar. E foi com essa crença que cresci. Fui uma “boa menina” até entrar para a faculdade e diga-se de passagem, bendita faculdade! Lá foi onde pude questionar tais parâmetros maternos, pois passei a ver colegas que transavam com os namorados e eles não as abandonavam. Este foi apenas o início das minhas mudanças de valores a respeito da sexualidade, das relações e da religião.
Destaco neste post duas formas de castração em especial: aquela via modelo de ser mulher, aprendido com a mãe e outra via religião. A castração nem sempre implica numa intervenção direta, clara e proibitiva sobre a sexualidade, mas na maioria das vezes diz respeito as mensagens subliminares das nossas relações de origem.
A castração feminina começa muito cedo, dentro de casa. Desde a infância recebemos mensagens conscientes e inconscientes, verbais e não-verbais, emocionais e corporais sobre nossa sexualidade e sobre o ser mulher, especialmente com a figura materna, suas crenças e visões a respeito dos relacionamentos, dos homens e de sua vivência do prazer.
No mito de Deméter (arquétipo da mãe) e Perséfone (arquétipo da filha), quando Perséfone é raptada por Hades e levada ao reino subterrâneo, a mãe se revolta e em protesto deixa sua função de deusa da agricultura, que fazia nascer a vida, fazendo a terra se tornar estéril. Até que uma negociação entre Zeus e Hades permite a Perséfone passar a primavera com a mãe. Podemos metaforicamente fazer uma superficial leitura desse mito associando-o ao aprisionamento que as filhas têm em relação as seus modelos de mulher/mãe. A mãe "não libera" a filha para se separar dela e ir viver seu romance com um homem. A filha por sua vez fica com um compromisso de lealdade com essa mãe, tendo que visitá-la ou seja, não abandonando seu modelo feminino.
Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.
Deméter e Perséfone
Para compreender as marcas da castração no seu corpo, comece observando sua mãe de hoje e de antigamente, tentando resgatar as “vozes” do passado, as quais ela expressava alguma coisa sobre a sexualidade e sobre as relações. Relembre como ela se posicionava na vida como mulher. Tinha ou não permissão para o prazer? Expressava dor, sofrimento, peso ou satisfação e prazer em relação ao ser mulher? Sua mãe é seu primeiro modelo feminino, e a forma como ela viveu afetará diretamente sua relação com seu corpo, sua sexualidade e seu feminino.
Observe também a relação dos seus pais ou casais de sua família. Como demonstravam afeto? Beijavam na frente dos filhos? Expressavam desejo um pelo outro na frente dos filhos? Qual era a atitude deles em relação a nudez? E em relação ao corpo deles e a seu corpo?
Faça uma lista dos mitos que você conhece a respeito da sexualidade e que te influenciaram e influenciam até hoje.
Numa hierarquia um pouco superior a familiar, e um pouco mais ampla em termos culturais,  encontramos a religião, que pode ser profundamente castradora. Avalie: qual a influência você teve da religião ou prática religiosa em seu crescimento? Quais mensagens sobre sexo você recebeu na educação religiosa e como foi influenciado por elas? Como as crenças religiosas influenciam sua vivência da sexualidade hoje?
A visão religiosa proibitiva da sexualidade costuma provocar uma culpa tão grande nos indivíduos que decidem vivê-la que muitas vezes a sexualidade é vivida de forma inadequada, impulsiva, inconsequente e desprazerosa. Lembrei-me de uma cena do seriado “Sex and the City” onde uma das personagens, Miranda, está transando com um homem que já havia sido um religioso, e após toda transa ele sempre saía da cama rapidamente para tomar um banho. E quando ela pediu pra ele ficar, dizendo que sexo não era sujo nem pecado, ele deu um acesso de raiva e a expulsou da casa dele. Apesar de ter arranjado uma estratégia para se sentir menos culpado pelo sexo, o dito cujo sentimento estava lá!
A culpa pode ser associada também a masturbação. Apesar de a mesma ser uma expressão normal e saudável da expressão sexual, a atividade ainda pode ser bastante conotada como inadequada e provocando efeitos nocivos. Mito!
Só é possível se livrar da culpa em relação a sua sexualidade quando você assume uma condição crítica a respeito dos dogmas e valores religiosos e familiares que você recebeu. Você é um ser pensante e precisa avaliar racional e emocionalmente o que é bom ou não para sua vida. A religião deve te ajudar a conectar-se com o divino mas não deveria prejudicar sua conexão consigo mesmo e com sua sexualidade.
Nós mulheres precisamos nos despir dessas influências de nossas origens para podermos viver uma sexualidade plena. Precisamos melhorar a relação com o próprio corpo. Enxergar e vivenciar o erótico em nossos corpos e a beleza desse erotismo, desconectando-o dos mitos originais. Precisamos suplantar os padrões de ser mulher das nossas origens.
Heiman e Lopiccolo, em seu livro "Descobrindo o Prazer" apontam que a mulher precisa assumir a responsabilidade por sua própria sexualidade, ou seja, precisa buscar desenvolver o seu prazer independente de estar ou não numa relação. Isto significa que não deveria ficar esperando ter um parceiro que lhe desperte sua sexualidade e que lhe dê prazer mas sim descobrir formas de viver prazerosamente sua própria sexualidade.
Melhorar a relação com o próprio corpo também depende diretamente do questionamento dos padrões de beleza impostos, que nos deixam escravas lutando contra uma feiura corporal que não existe. Implica em gostar do próprio corpo mesmo quando ele possui umas gordurinhas localizadas, umas pochetezinhas na barriga, ou alguns chumaços de celulite nas pernocas, ou alguns riachos de estrias no bumbum!
Viver a sexualidade individualmente significa tirar um tempo para descobrir o próprio corpo e para seduzir a si mesma. Invista na aventura de descobrir o prazer no seu corpo com toques, com cremes, com óleos, com texturas e observar como e onde sente mais prazer. Seduza e erotize a si mesma! Utilizar de recursos femininos como lingeries pode ajudá-la nessa fantástica descoberta erótica de si mesma.
Acredito que quando a mulher consegue enfrentar sua própria castração e trabalhar em função de transformá-la, estará muito mais livre para construir um espaço erótico e prazeroso nos relacionamentos. Estará mais pronta pra viver uma sexualidade mais satisfatória e plena consigo mesma e com o outro.

Relacionamentos, sexualidade, mulher, feminilidade, castração, mãe e filha, religião, prazer.

Estou encantada com as pinturas que encontro no blog: http://artodyssey1.blogspot.com.br/
Adriana Freitas
Psicoterapeuta Sistêmica em BH

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